



A Marca de Caim
[Capítulo II]
Os grãos de feijão da minha avó...
Após alguns poucos anos em São Paulo, me deparando com toda a miséria que pensava ter deixado para trás em cada esquina de cada rua que atravessei nesse tempo, já não era mais o iluminado menino de dezessete anos que deixara Campos do Jordão atrás de um lugar em que pudesse depositar os jardins de minha esperança. Mas ainda tinha no olhar aquele brilho de quem se sabe incapaz de deixar-se ser consumido pelo medo e entregue a mediocridade da calmaria do óbvio.
Por vários momentos a única reposta que ecoava em meus ouvidos era: “Volte para o seu lar...” Mas se eu já me sabia sem lar quando deixei Campos, aquela São Paulo que me consumia também era a cidade que me alimentava e eu estava cada vez mais viciado naquela busca eterna que jamais imaginei ter saciado.
Enquanto devorava livros e mais livros com uma fome adolescente, trabalhava muito para me manter em meu caminho e se as coisas não estavam sendo fáceis, pelo menos eram possíveis e isso me revelava a certeza de que eu ainda conseguiria alguma coisa.
“Caminho dez passos, ela se afasta dez passos, corro cem metros, ela se afasta cem metros. Por mais que eu a persiga, jamais a alcanço. Então para que serve a utopia? Serve para isso: para fazer caminhar”.
Eu talvez nem tivesse consciência de que minha busca era exatamente essa e ainda tinha repostas prontas para o que buscava naqueles anos de uma jovial esperança utópica tão bem definida aqui por Eduardo Galeano.
Como não deixei para trás nada que pudesse me fazer sentir saudade, consegui estabelecer, no máximo, dois ou três contatos com meu passado em todo aquele tempo e aquilo tudo, aquela vida que levara antes de desembarcar no terminal do Tietê, me parecia mesmo algo longínquo demais e parecia não mais fazer parte da minha história.
Se alguma coisa era capaz de despertar em mim qualquer gosto de saudade, nada tinha a ver com pessoas ou momentos vividos. A nostalgia que vez ou outra me apertava o peito estava intrinsecamente relacionada as minhas paisagens natais.
Lembrava-me dos lugares que gostava de estar quando menino e apenas essas lembranças eram capazes de me remeter a uma saudade doída de tão pungente.
Eu podia estar em todos aqueles lugares mágicos independente do dinheiro que trazia nos bolsos e isso era tudo que me valia a vida antes de chegar em São Paulo.
De todos esses meus tesouros de infância e parte da adolescência, o lugar que mais revirava minhas lembranças eram as minhas verdes e frias montanhas. Era maravilhosa a sensação de liberdade que sentia quando o vento soprava quente de tão frio lá no alto de minhas montanhas.
Estranho como as pessoas me diziam tão pouco perto do que me gritava as paisagens! Nem mesmo Klauss, o amigo que me levara a um teatro pela primeira vez; nem Daniel, o cobrador do bonde que me dava carona todas as tardes, depois das aulas; nem Heitor, meu primeiro grande mestre... Ninguém... Ninguém era capaz de despertar uma saudade maior do que a minha montanha causava.
Qualquer momento difícil aqui nessa cidade que tanto vicia seria capaz de superar algumas dores que trazia entranhada em mim.
Nunca, jamais, conseguiria esquecer o dia em que nosso casebre despencou da ponta do morro e que roubou, num só dia, minha mãe, meus dois irmãos, minha irmã e a possibilidade de uma vida familiar normal.
Não esqueceria jamais o momento em que chegamos em casa, ou onde deveria estar a nossa casa, e os olhos desesperados do meu pai me fizeram entender, apesar dos meus poucos quatro anos de idade, que a tragédia havia carimbado em nossa alma uma ferida tão grande que o tempo jamais conseguiria fechar e que nós, jamais, sorriríamos como antes.
Lembro-me das irmãs que nos abrigaram por alguns dias, junto com mais algumas pessoas que sobreviveram aquele infortúnio impiedoso da natureza. Natureza celestial e humana, pois, se como diziam as irmãs: Deus havia mandado aquela forte chuva porque ela se fazia necessária para limpar o mundo; os homens colaboravam muito quando iam loteando e vendendo nossa cidade a um alto preço enquanto ao povo do lugar cabia ir subindo os morros que eram os únicos lugares que ainda não tinham um valor de mercado, embora o preço daquela subida fosse um mais insustentável ainda de tão alto. Como saboreávamos naqueles dias esse amargor caro e impagável.
O turismo desordenado da minha verde terra fria custava muito caro e como quem pagaria por ele seria sempre nós, os que menos tínhamos condições de bancar aquilo, aquela cidade me parecia agora, vista assim de longe, uma grande e montada cidade cenográfica, com sua beleza de papéis coloridos, suas falsas paredes que desmoronariam aos primeiros ventos mais fortes. Uma cidade onde coisas reais não tinham espaço como seu próprio e genuíno povo faminto e magro.
Até mesmo o verde das minhas montanhas já tinham preço e eu não podia mais arcar com isso. Tudo que eu tinha eu já entregara em troca de poder me sentar no alto daquelas montanhas. Entregara toda a minha família por aquele quinhão de felicidade, mas, ainda assim, cobrariam por cada tragada de ar puro levado aos meus pulmões e eu já acreditava que aquele preço não mais me caberia e nem acreditava no poder da supervalorização daqueles benefícios.
Meu pai também se entregou a morte enfiando-se na bebida e destruindo seu fígado com o calor de seus traumatizantes pileques e eu ouso dizer que ir com minha avó busca-lo quase todas as tardes em alguma sarjeta daquela cidade me custou ainda mais do os funerais de minha mãe e meus irmãos.
Eu era conhecido como o “menino do dente” e isso porquê no dia do fatídico acidente, meu pai e eu havíamos ido ao dentista da igreja para que ele extraísse um dente de leite que nascera fadado ao fracasso e que perturbava a paz do menino ainda tão pequeno para compreender tamanha dor. Eu só tinha quatro anos e conseguia achar o alívio causado pelo extermínio daquele intruso tão bom que nem mesmo a morte de minha família foi capaz de me tirar o sorriso quando eu passava a língua pela gengiva inchada e encontrava o buraco imenso que ficara em minha boca enquanto meu pai chorava sobre os caixões de nossa família, imaginando o buraco muito maior em que haveríamos de nos enterrar juntamente com aqueles corpos.
Meu dente nascera tão inapto a sua função de dente quanto meus irmãos e eu, e mais todos aqueles meninos filhos das famílias miseráveis dos morros de Campos do Jordão, nascemos inaptos à condição humana. Essa condição a nós negada não poderia conceber seres que enterravam seus avós mortos pelo frio castigante, seus irmãos mortos pela desnutrição ou sua família inteira levada pela chuva.
Engraçado que no mesmo momento em que mergulho nas minhas mais sombrias lembranças, alguma coisa quente venha acalentar meus pensamentos. Mas como poderia lembrar de minhas verdes montanhas sem me lembrar que lá no alto experimentara quase todas as sensações proibidas de minha vida?
Lá havia tomado meu primeiro gole de álcool, quando tinha dez ou onze anos, num ritual quase sagrado entre meus amigos e eu; lá fumei meu primeiro cigarro, comprado com o dinheiro ganho da venda das cocadas feitas pela minha avó e que eu vendera no centro da cidade quando tinha doze ou treze anos; lá também conheci o aroma da fêmea que morava em Natália, minha calorosa e sensual namorada e vivi o primeiro momento sexual de minha vida; só não me lembro se foi lá que provei o meu primeiro baseado, mas acredito que tenha sido dentro de uma daquelas grutas, numa daquelas noites em que reunia todos esses “pecados” de uma só vez e que eu não me saberia se mais entorpecido pelo álcool, por tal erva ou pelas meninas que povoavam a minha vida com novas e quentes sensações.
Minha primeira namorada foi Natália, mas meu primeiro amor foi Denise que, por sinal, dividia comigo o mesmo quintal enquanto morei com minha avó; comigo e com mais dez ou mais famílias que se amontoaram naquele terreno público que mais tarde viraria uma das grandes pousadas de minha cidade.
Se com Natália vivi o primeiro momento sexual, foi com Denise que o amor se desenhou em forma de sensualidade e a ida dela para a Alemanha, juntos com um grupo de freiras que fazia uma espécie de missão na nossa cidade e, de alguma maneira pra mim desconhecida, despertaram em Denise a sua vocação, segundo ela me dissera numa das noites mais chorosas e intermináveis da minha vida; foi parte responsável pela minha decisão de deixar Campos de vez.
Falando assim, pareço um velho e cansado homem que arrasta uma saga por anos a fio, mas, na verdade, as coisas para mim aconteciam com tanta rapidez que quando vim para São Paulo, já me sentia um homem pronto a buscar meus caminhos verdadeiros.
Ainda o quintal de nossa casa, aquele mesmo dividido com tantas pessoas, vivi algumas coisas que, por muitas vezes, me fizeram chorar muito de revolta. Nessa época eu já não tinha mais meu pai e morava com minha avó e um tio doente e doentio numa casa minúscula de dois úmidos cômodos.
Aqueles dois seres eram os únicos que restaram de minha família, mas, nem por isso, eu sentia por eles qualquer carinho especial. Minha avó era seca e amarga como sua vida e esforçava-se para me mostrar o tempo inteiro o quanto eu havia driblado o destino ao sair com meu pai naquela tarde de vinte e oito de fevereiro de mil novecentos e oitenta e dois.
Hoje sei que não fazia por maldade, só não havia aprendido a amar e não poderia me oferecer mais do que seus quentes pratos de sopa rala, ou suas rezas curandeiras quando estava com febre, como prova de um carinho que ela jamais ousou saber traduzir.
Mas não eram as frases que minha avó repetia como preces quando eu não a contentava por alguma razão: “Enganou a morte uma vez, mas você não é gato não. Gente só tem uma vida. Não sei por que Deus não te levou junto para sua mãe cuidar de você junto com seus irmãos.”
Embora elas muitas vezes me fizeram chorar, não eram essas duras frases que me revoltavam naquela época... não eram essas frases geladas que me tiravam o sono nas noites inquietas e solitárias.
O que gritava dentro de mim e tirava as minhas forças era a fome que gemia alto nas nossas vidinhas que resistiam bravamente dias, arrastando-se por entre os pinheiros iluminados nos vários e vazios natais.
Minha avó lavava as roupas de cama de um pequeno hotel no bairro de Abernéssia e, com isso, conseguia comida de graça nos mantendo por algum tempo, mas logo seu reumatismo não mais permitiu que deixasse aqueles lençóis brancos como imaginava o proprietário do hotel e as máquinas de lavar foram substituindo a sua mão de obra e passávamos muita fome então.
Quase todos os dias comíamos sopas feitas com restos de legumes e verduras que minha avó conseguia pegar num convento. Ela dizia que eles lhes davam as sobras, mas até hoje desconfio que ela as pegava no lixo...
Eu nunca reclamei, mas dona Jaciara, minha avó índia, estava sempre lamentando nossa miséria quase que em forma de ladainha.
Nessa época meu tio fora acometido por uma estranha doença que o atrelou à cama para o resto de sua vida miserável e não mais fora capaz de pronunciar uma única palavra e assim ficou por anos, minguando a cada dia até não mais suportar a sua sina.
Numa noite muito fria quase não dormíamos, pois meu tio estava delirando muito com sua febre quase constante e eu me lembro que em meio aos lamentos de minha avó a ouvi dizer que daria qualquer coisa por um prato de feijão.
Dizia: “Feijão te faria bem, Luiz! Feijão seria bom para te dar sustância! Sustância ao seu estrômbago.”
Nunca soube que doença meu tio tinha e nem sei ao certo por quantos anos ele ainda resistiu a aquele fim tão previsível, mas... o feijão, ou a vontade de ajudar aquela velha e cansada mãe a segurar a vida de seu filho que esvaia por seus dedos me roubaram o sono e eu, que hoje nem suporto o gosto do feijão, passei a noite imaginando uma maneira de conseguir dinheiro para comprar o alimento que “salvaria” meu tio daquele tormento, muito embora eu deva confessar, sem qualquer traço de culpa ou remorso, que a vida daquele ser ali, muito pouco me despertava solidariedade, compaixão ou qualquer outro sentimento mais humano.
Eu devia ter uns sete ou oito anos nessa época... Ainda não conhecia as várias maneiras de se conseguir dinheiro naquela cidade turística que vim a conhecer mais tarde.
Depois de uns dias, cheguei em casa após ter almoçado no convento onde tinha aulas de catecismo e de dança, e minha avó estava dando ao meu tio um prato de um caldo ralo, mas, olhando melhor, pude ver alguns grãos de feijão boiando no caldo sem cor e me senti feliz como nos melhores momentos de minha vida.
Mais tarde descobri que minha avó colecionara por algum tempo, os grãos de feijão despejados no quintal e isso se tornara um hábito desse dia em diante. Ela recolhia os grãos e quando acreditava ter uma quantidade suficiente, cozia, como naquela tarde.
Essa “colheita” não era realizada numa plantação, aliás, até hoje não entendo o porquê de, naquele imenso quintal de terra, não haver uma única planta que pudesse ser ingerida; mas o fato é que com todas aquelas famílias morando juntas, quando se selecionava os grãos, os inaptos eram despejados no chão de terra e eram esses grãos que minha avó colecionava para dar ao meu tio. Eram os grãos despejados por aquelas tantas famílias que compunham o cardápio alimentar que salvaria meu tio da morte e quando me dei conta disso, lembro-me que chorei muito de revolta e que vi na minha avó uma força nunca antes percebida.




A Marca de Caim
[Capítulo I]
Sampa prazer em conhece-la...
Quando sai da minha pequena cidade natal trazia pouca roupa e muita esperança de que me encontraria naquela nova proposta de vida.
Li outro dia que a esperança é diferente do otimismo, praticamente o contrário segundo Rubem Alves. O otimismo depende de boas notícias já a esperança só depende de você crer.
Como ele dizia: “otimismo é trazer a primavera lá de fora para dentro de você e esperança é transformar o inverno lá de fora em primavera dentro de você”.
Era exatamente esperança que eu trazia, pois mesmo não vendo as flores brotando lá fora, preparava jardins imensos no meu interior para abriga-las.
Sabia que o que ficava para trás não era nada do que eu queria viver e assim saía sem nenhum traço de arrependimento ou saudade.
Bem verdade que quando desci no Terminal Rodoviário do Tietê e vi aquele monte de gente, diferente dos paulistanos que visitavam minha fria cidade, choquei-me por alguns instantes.
Quanta gente! Quanta pressa! Quanto barulho!
E tudo isso parecia passar tão despercebido por todos. Somente eu parecia vislumbrar tamanho frenesi. Era como se as pessoas não vissem as pessoas e o barulho fosse a mais bela música a entupir os ouvidos sempre tão alheios a tudo e tão atentos a todos, paradoxalmente.
Apertava forte em minhas mãos a bolsa e sentia o peso da grande mochila em minhas costas.
Alguém já havia me prevenido sobre lugares tumultuados, alvos fáceis como eu deveriam sempre estar atentos.
“Onde há fome, há violência”.
Era exatamente da violência da fome que eu pensava fugir quando desci naquele terminal tão repleto de gestos e tão vazio de intenções.
Vítor me dissera ao telefone: “Procure a Marginal do Tietê”. E não foi difícil encontra-la. Bastou procurar o rio mais triste e a avenida mais cinza que eu já vira e lá estava eu, exposto ao calor insuportável da “terra da garoa”, numa tarde de uma quinta feira do mês de abril, num ponto de ônibus repleto de gente e um cheiro forte de churrasco que se confundia com um terrível cheiro que emanava daquele rio agonizante.
Enquanto esperava por Vítor olhava os muitos carros presos naquele trânsito de arrepiar e observava os motoristas impacientes aguardando o momento mais desejado naquela situação: poder acelerar.
A minha esquerda notei um homem que caminhava devagar, falava ao celular e vestia um terno alinhado e aparentemente bem caro. Carregava nas mãos uma pasta do tipo executiva que parecia abrigar os segredos de uma grande negociação.
Eu sei que as pessoas se acostumam. Hoje entendo ainda mais essa premissa, mas, aquele cheiro absurdamente cruel que entupia minhas narinas era algo tão agressivo ao meu olfato de recém chegado que me admirava ver as pessoas comendo aqueles espetos de churrasco tão tranqüilamente enquanto eu tinha que prender a respiração algumas vezes tamanha a náusea que o odor provocava.
Olhei o vendedor de churrascos, homem simples e tão seguro, parecia ter uma consciência tão plena sobre suas possibilidades... Enquanto virava seus espetos na pequena churrasqueira enferrujada ou enquanto servia cachaça em copinhos descartáveis para os tantos homens que se achegavam a sua capenga barraca, o que eu conseguia ver nos gestos e expressões daquele homem, era uma certeza plena de que aquele era seu lugar no mundo e que era exatamente naquele lugar que ele queria estar.
Mais adiante uma senhora trazia numa das mãos um grande envelope que parecia recém saído de um laboratório e que abrigava um diagnóstico misterioso para mim. Na outra mão trazia um menino de quatro ou cinco anos muito bem preso naquelas rédeas maternas.
Olhei os olhos dela a procura de alguma resposta sobre o misterioso envelope, mas só o que via era a preocupação da mãe que precisa chegar logo em casa, voltar para seus afazeres e só o que conseguia enxergar era o trânsito caótico e os poucos ônibus que chegavam apinhados de gente como eu nunca testemunhara em minha vida.
Vítor estava bastante atrasado, mas com um trânsito daqueles...
Por um instante fixei-me na imagem do menino que parecia despender de um esforço incrível para libertar-se daquela mão protetora. Não iria a lugar algum aquele menino solto, mas na mãozinha gorda e livre trazia um pacote de biscoitos de polvilho esmagado por sua própria ansiedade e todo aquele brutal esforço era apenas canalizado à intenção de levar um daqueles anéis comestíveis à boca.
Sorri amplamente ao constatar que enquanto lutava com a mão forte da mãe tentava abrir o tal pacote e levava a boca até ele sem sucesso enquanto seu rosto estava totalmente decorado pelos farelos das guloseimas já ingeridas.
Enquanto sorria me divertindo muito com tal cena não me dava conta de que alguém poderia estar me observando como eu a aquele menino. Ainda não haviam me prevenido que não seria muito adequado andar sorrindo pelas ruas, pois, poderia apresentar sinal de insanidade...
Insanidade?
Continuava a olhar o trânsito, a sentir o odor do rio que morria, enxergar o cinza da avenida e observar os ônibus lotados.
Um motorista menos conformado resolveu que o barulho de sua buzina poderia interferir na ordem natural daquele caos e o barulho que produzia era ainda mais violento do que aquele trânsito insuportável. O pior é que ainda conseguia adeptos naquela sua idéia infeliz e outros motoristas acharam por bem meter suas mãos em suas buzinas e a primeira palavra que me veio à cabeça foi: In-sa-ni-da-de.
Lutas diferentes a daqueles motoristas presos no trânsito e a daquele menino preso na zelosa mão materna. Mas no final todos buscavam apenas libertar-se, ainda que de garras tão diversas e por motivos ainda mais diversos.
Os motoristas lutavam contra aquelas correntes usando como armas aqueles ruídos insuportáveis, o menino lutava bravamente em silêncio, mas todos tinham um grito forte estampado nos olhos e isso me remeteu a acreditar que também eu assumia uma grande luta quando subi naquele ônibus e vim encontrar-me com essa cidade de grandes guerreiros. Mas quais seriam as minhas armas?
Algumas pessoas no ponto ousaram reclamar do barulho produzido por aqueles motoristas, mas falavam para si mesmo e eu, ingênuo, tentei interagir com algumas delas, mas tudo que obtive como respostas foram rostos fechados, caras carrancudas de quem teme o desconhecido principalmente quando esse desconhecido se mostra vivo como eu naquele momento. Um desconhecido que tenta interagir e que sorri ao observar um menino pode ser mesmo muito mais perigoso do que se imagina.
Mais a frente um caminhão trazia uma mudança pobre exposta aos ares poluídos da grande marginal e eu reparei um sofá tão velho e roto quanto o caminhão que o transportava e vi a fumaça preta que se desprendia do escapamento enquanto o motorista acelerava freneticamente sem sair do lugar.
Um helicóptero chamou a atenção de todos por seu vôo baixo e escutei alguém dizer: “É da P.M., só falta ter tido rebelião na FEBEM”.Outra voz completou: “Xi! Se isso aconteceu, vamos chegar em casa só amanhã”.Eu olhei para o helicóptero e para os dois homens que falavam e pensei o que poderia significar aquelas palavras. Seria mesmo possível uma cidade tão grande que para se deslocar dentro dela se varasse uma noite inteira?
Um homem muito alto, magro e visivelmente alcoolizado pedia esmolas às pessoas que sequer o olhavam enquanto um outro senhor também alto e magro, vestindo um terno verde e bem gasto cochilava apoiado numa das colunas de cimento que seguravam o teto do ponto de ônibus.
O trânsito dava suas primeiras mostras de normalidade e eu conseguia até mesmo enxergar o outro lado da avenida. Meus olhos conseguiam ver, entre um carro e outro que ainda passavam lentos, o canteiro a margem do rio.
Observei um cachorro imenso e marrom que jazia com as pernas para o ar encostado ao canteiro e supus que o odor insuportável que sentia a pouco tinha alguma coisa a ver com aquele cadáver.
Sim. O cheiro. Por alguns momentos eu havia me esquecido de senti-lo, imerso que estava na paisagem inédita que se revelava para meus curiosos olhos de forasteiro. É. A gente se acostuma muito mais fácil do que parece!
Muitos carros iguais passavam devagar diante de mim e chamavam a atenção de todos exatamente por serem iguais. Percebi que era uma escolta e eu pude ver um senhor grisalho dentro de uma bela Mercedes e viajei nas diversas possibilidades de identidade e estilo de vida daquela pessoa tão bem guardada pelos tantos carros que o cercavam.
Um automóvel tipo Kombi parou no ponto e um garoto pendurado do lado de fora dele oferecia condução aos berros confusos e, ao olhar para dentro daquele automóvel, eu tive a nítida impressão de que qualquer pessoa que tentasse entrar ali sairia imediatamente pelo vidro do outro lado, mas a mãe zelosa entrou, não sem antes empurrar o menino que finalmente livre ainda conseguiu enfiar umas daquelas argolas inteiras e de uma vez em sua boca tão pequena e faminta.
Com a mãe mais duas ou três pessoas ainda conseguiram entrar e eu fiquei extasiado diante daquela situação, mas lendo o grande letreiro na lateral do automóvel imaginei mesmo ser normal que um veículo intitulado lotação pudesse andar assim tão lotado.
De um momento para o outro o trânsito fluía e algumas pessoas arriscavam sorrisos e comentários otimistas, mas logo a alegria acabou, pois um ônibus enorme como eu nunca tinha visto passou rápido na pista do meio da avenida ignorando as quase dez pessoas que acenavam para ele esperançosas em chegar aos seus destinos.
Alguém gritou palavrões, outro rogou pragas e outro falou mal do governo, mas novamente ninguém falava com ninguém e isso parecia perfeitamente comum.Tão comum que eu mesmo já me acostumara e nem tentara responder.
Observei alguns olhares divertidos e então percebi a presença de um rapaz que passava rebolando, cantando e jogando beijos a todos os homens que via.
Foi a primeira vez que alguém interagia comigo naquela tarde: “Nossa! Menino você é uma delícia!”.
As pessoas me olhavam sorridentes e, por um momento único, pareciam perceber que éramos todos da mesma espécie e confraternizaram sua diversão umas com as outras.
Alguém gritou: “Vai pra casa bicha loca!”.
O rapaz esqueceu-se de mim e parecendo ser a pessoa mais feliz do mundo com seu olhar brilhante abaixou a calça deixando seu traseiro magro e pobre exposto ao homem que havia gritado.
“Sai pra lá com essa bunda seca, Michael Jackson! Não espanta minha freguesia, rapaz!” – gritou o vendedor de churrasco forçando uma ira inexistente naquele momento.
Todos pareciam viver um momento de prazer explícito e sorriam muito divertidos com a tragédia daquele ser visivelmente perturbado e bizarro.
Todos sorriam muito mesmo depois que tal figura continuou sua caminhada afastando-se dali, exceto o senhor que ainda cochilava seu cansaço e uma senhora que parecia indignada com a cena e esforçava-se para não olhar na direção do insano transeunte, embora eu pudesse apostar que não perdera nem um só lance.
De alguma maneira absurdamente incomum aquele homem foi a primeira pessoa a se mostrar feliz em receber-me em sua cidade e ainda mais absurdamente eu senti um carinho especial por aquela pessoa que havia me enxergado e que fora capaz de pulverizar naquela gente que a pouco gritava palavrões alguns momentos de alegria e percepção dos outros a sua volta.
Mas um tumulto grande atrás de nós chamou-nos atenção e eu vi um menino que corria muito enquanto dois ou três homens tentavam alcança-lo e a mulher que vendia passes e cigarros contrabandeados gritava: “Pega ele. Pega esse safado pra mim!”.
“Esse ninguém mais pega” falou o senhor que acordara de repente e disse isso olhando fixamente para mim e eu apenas sorri. Por alguns segundos temia muito o que poderia presenciar caso o menino fosse mesmo pego por aqueles três homens grandes e fortes.
Nesse exato instante pensei que se não sabia ao certo o que vim buscar quando entrei naquele ônibus até a grande metrópole já brotava em mim a certeza de que não queria ser o homem de terno alinhado que segurava em suas mãos os segredos de um grande negócio e nem muito menos o senhor grisalho escoltado por toda aquela frota; também não queria ser o seguro vendedor de churrascos, nem o menino que corria com seus passes roubados e nem, muito menos, um dos homens que tentava alcança-lo.
Com uma ânsia imensa de que o mundo me revelasse de uma vez por todas o que estaria buscando de fato, pensei:
Essa cidade vai me consumir e é exatamente isso que eu quero.
A Marca de Caim
Introduzindo...
Caminhava devagar.
Estava escuro demais e eu já não podia saber por onde meus pés deslizavam.
Tinha as pernas bambas e o suor escorria livre sobre o arrepio da minha pele.
Não havia nenhum sentido que funcionasse naquele momento.
Não sentia os aromas daquele mergulho no escuro, não havia tato capaz de encontrar alavancas onde pudesse me segurar, não havia ruídos que pudessem me guiar...
Não havia nada. Somente eu mesmo e meus pés inseguros sobre aquele desconhecido chão.
Todo e qualquer sangue do meu corpo parecia estar nas pontas dos meus pés que sempre chegavam primeiro ao próximo passo.
Nem mesmo meu coração parecia bater naquele momento e não sentia qualquer sinal de sangue em minhas veias e nem ar nos meus pulmões.
Estaria eu mergulhando no acaso escuro do último encontro?
Quem estaria me esperando ao final daquele passeio?
Outra vida ou mais morte?
E foi então que meus pés encontraram o nada. Foi então que provei a misteriosa sensação de pisar o nada e escorreguei para dentro daquele imenso vazio onde sequer me sabia ser.
E na queda, o ar que invadiu minhas narinas de maneira grotesca impedia-me até mesmo de pensar sobre a queda ou de tentar traçar com os olhos aquele caminho sem volta.
Eu estava cego... já não mais poderia ver a beleza daquele mergulho final!
Já não mais poderia tentar regressar a qualquer início, qualquer recomeço me fora definitivamente negado.
Antes mesmo de sentir o gosto frio do sangue que rompia em minha boca ou a dureza do solo que me recebia solenemente, minha mente passeou pelos infinitos pontos de interrogação que arrastei vida afora:
Onde teria começado esse meu fim?
No primeiro gole de vinho que provei para tentar mostrar que não era mais criança?
No primeiro trago da maconha que fumei na Gruta?
Na primeira carreira de cocaína disposta sobre o prato branco e com as bordas quebradas?
Na primeira vez que tirei meu pai duma poça de água suja?
Nas palavras duras de minha avó quando desejava que eu também tivesse morrido?
Nos transes monstruosos de meu tio moribundo?
No doce de amendoim que roubei na barraca da tia Sônia e no tapa que ganhei por causa disso?
No desejo de ter os beijos de minha mãe cada vez que eu ralava o joelho?
Na minha dor de dente?
No descortinado violento da ruptura familiar em forma de tragédia?
Na primeira das mil e uma noites com aquela mulher do Egito?
No banho de ervas de Manuca para me livrar da marca de Caim?
Na boca do meu primeiro cliente?
Onde está o início desse meu fim?
