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Domingo, Maio 10, 2009

Intervalos



Saudade de filho



Ontem dormi pensando em escrever alguma coisa para você, mas a inspiração não me visitou por esses dias...
Eu não sei porque, quando escrevo me sinto mais perto de você. Sempre foi assim!
Acho que você pertence ao mundo das palavras... Um mundo onde tudo pode ser denominado, embora quase nada seja definitivamente definido.
Um mundo, ou um lugar onde não contamos com os sentidos para sabermos real.
Não posso te tocar, não posso te cheirar, não posso nem te ver ou ouvir... Mas sei que está aí e sei que está por mim.
Passei o dia inteiro hoje pensando em você.
Do quanto eu gostaria de ter te conhecido melhor, mas sinto que te conheço tanto!
Essa data é absurdamente comercial. Não tem o menor sentido que não o de vender presentes, mas, mesmo assim, sempre traz reflexões.
No colégio dos meus filhos não houve festa para as mães. A professora alegou que as crianças que não tem as suas mães presentes sofrem demais!
Nossa! Senti um alívio!
A mãe deles achou triste, mas eu sei que o triste mesmo é estar no palco cantando e dançando para a mãe dos outros...
Acho que o pensamento está mudando! Tomara!
Pensei na Ana e no Matheus... Na dor que estão sentindo hoje ainda mais pungente... Pensei na dona Carmém...
Pensei nas mães que conheço...
Bateu um sentimento de recolhimento... Um estar comigo mesmo e tirar disso alguma coisa construtiva...
Fica assim... Nesse mundo de palavras e falta de tato, Alice, cuida da mãe do Teys e da Aninha pra mim?
Vocês que até ontem habitavam mundos diferentes em mim e hoje vivem no mesmo planeta saudade... Embora eu sinta que no fundo, bem no fundo, eram do mesmo mundo sempre, eu é que não sabia...
No dia de dar presentes para as mães eu é que peço.
Mas você me sabe, sou assim mesmo, não é?
Que a Aninha e o Matheus não tenham que subir num palco para exporem a sua dor, a menos que isso lhes agradem e que todas as mães do mundo, pelo menos hoje, sintam-se mais amadas!
Tivesse eu algum poder baixaria um decreto que firmasse a eternidade de todas as mães, mas... pensando de novo na dona Carmén, não creio que seria justo para elas terem que enterrar seus filhos, então...
A ordem das coisas deve mesmo estar certa não é? A gente é que não compreende os mistérios que isso envolve.
Mas eu queria mesmo ter escrito alguma coisa, ter feito um vídeo... sei lá... Não deu! Fica pra próxima.
Sei que você me entenderia, vocês sempre entendem tudo que um filho faz e até o que ele não faz.
Mas achei uma música do Vercilo que me trouxe você!

Amo você!

Do Jeito Que For

Aonde cresci
Do que já vivi
Não me lembro de nada na vida
Que mais se pareça com amor
Como lembro de ti

Na minha ilusão
O seu coração
É a peça perdida
No quebra-cabeças daquela emoção
Que um dia perdi

Flor,
Minha vida tá despetalada sem teu amor
E parece que nada vai mudar
Chuva que cai sem parar
Deixa no canto do peito
Esse gosto de dor

Vem,
Eu guardei o meu tempo de vida
Pra mais ninguém
Seja fogo de palha ou seja amor
Seja do jeito que for
Só de pensar em você
Já me faz tanto bem




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Sexta-feira, Maio 08, 2009

Interferências de...



Rubem Alves


Jardim (trechos)




(...) Depois de uma longa espera consegui, finalmente, plantar o meu jardim.
Tive de esperar muito tempo porque jardins precisam de terra para existir.
Mas a terra eu não tinha. De meu, eu só tinha o sonho.
Sei que é nos sonhos que os jardins existem, antes de existirem do lado de fora.
Um jardim é um sonho que virou realidade, revelação de nossa verdade interior escondida,
a alma nua se oferecendo ao deleite dos outros, sem vergonha alguma...
Mas os sonhos, sendo coisas belas, são coisas fracas.
Sozinhos, eles nada podem fazer: pássaros sem asas...
São como as canções, que nada são até que alguém as cante; como as sementes,
dentro dos pacotinhos, à espera de alguém que as liberte e as plante na terra.
Os sonhos viviam dentro de mim. Eram posse minha. (...)
Eu não acreditava que meu sonho pudesse ser realizado. (...)
Mas um dia o inesperado aconteceu. O meu sonho fez amor com a terra e o jardim nasceu.
Não chamei paisagista. Paisagistas são especialistas em jardins bonitos.
Mas não era isto que eu queria. Queria um jardim que falasse. Pois você não sabe que os jardins falam?
Quem diz isto é o Guimarães Rosa: "São muitos e milhões de jardins, e todos os jardins se falam.
Os pássaros dos ventos do céu - constantes trazem recados. Você ainda não sabe. Sempre à beira do mais belo.
Este é o Jardim da Evanira. Pode haver, no mesmo agora, outro, um grande jardim com meninas.
Onde uma Meninazinha, banguelinha, brinca de se fazer Fada... Um dia você terá saudades... Vocês, então, saberão..."
É preciso ter saudades para saber. Somente quem tem saudades entende os recados dos jardins.
Não chamei um paisagista porque, por competente que fosse, ele não podia ouvir os recados que eu ouvia.
As saudades dele não eram as saudades minhas. Até que ele poderia fazer um jardim mais bonito que o meu.
Paisagistas são especialistas em estética: tomam as cores e as formas e constróem cenários com as plantas no espaço exterior.
A natureza revela então a sua exuberância num desperdício que transborda em variações que não se esgotam nunca,
em perfumes que penetram o corpo por canais invisíveis, em ruídos de fontes ou folhas...
O jardim é um agrado no corpo. Nele a natureza se revela amante... E como é bom!
Mas não era bem isto que eu queria. Queria o jardim dos meus sonhos, aquele que existia dentro de mim como saudade.
O que eu buscava não era a estética dos espaços de fora; era a poética dos espaços de dentro.
Eu queria fazer ressuscitar o encanto de jardins passados, de felicidades perdidas, de alegrias já idas.
Em busca do tempo perdido...
Uma pessoa, comentando este meu jeito de ser, escreveu:
"Coitado do Rubem! Ficou melancólico. Dele não mais se pode esperar coisa alguma..."
Não entendeu. Pois melancolia é justamente o oposto: ficar chorando as alegrias perdidas, num luto permanente, sem a
esperança de que elas possam ser de novo criadas.
Aceitar como palavra final o veredicto da realidade, do terreno baldio, do deserto.
Saudade é a dor que se sente quando se percebe a distância que existe entre o sonho e a realidade.
Mais do que isto: é compreender que a felicidade só voltará quando a realidade for transformada pelo sonho,
quando o sonho se transformar em realidade. Entendem agora por que um paisagista seria inútil?
Para fazer o meu jardim ele teria que ser capaz de sonhar os meus sonhos...
Sonho com um jardim.
Todos sonham com um jardim.
Em cada corpo, um Paraíso que espera...



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Segunda-feira, Abril 20, 2009

Intervalos



Que cheiro é esse?



A reflexão de hoje gira em torno do poder de abstração.
Durante muito tempo acreditou-se que a inteligência do ser humano poderia ser
medida através de testes que comprovassem o raciocínio lógico.
Esse pensamento refletia não mais que a visão utilitarista do homem, onde somente
o que é passível de comprovação é verdade.
Alias, a discussão em torno da verdade se faz presente em toda a história da humanidade,
mas esse é outro assunto...
Deus é a verdade? A Ciência é a verdade?
De verdade? Fico aliviado que Gardner tenha comprovado que existem muitos outros tipos de inteligência,
inclusive a que diz respeito ao poder de abstração.
A imaginação enfim é reconhecida como parte do desenvolvimento humano.
Ufa!
Fernando Pessoa, João Cabral de Melo Neto, Pablo Neruda, Pablo Picasso, Pablo Milanês, Rodin,
Chico Buarque, Nelson Rodrigues, Walter Sales, Clarice Lispector, Heitor Villa-Lobos, Ariano Suassuna,
Sebastião Salgado, Cora Coralina, Portinari, Laban, Rumi, Almodóvar, Gonzaguinha, Fernando Lee, Koellreutter...
Agradecem!
Se somente o que é de comprovada existência material constitui um sujeito, como ficam as questões da criação?
O que eu imagino não é de verdade, mas as sensações e sentimentos provenientes do que a minha mente
projeta como verdade são concretos e constitutivos da minha personalidade... Então?
A arte não é de verdade?
Mas a Monalisa existia? Ela pousou para que fosse retratada pela pintura do artista?
Mas e tudo que gira em torno da mítica sobre a obra?
Seria o auto-retrato do artista? Ele existia daquele jeito? Meio homem, meio mulher?
Nossa! A reflexão vai longe e daqui a pouco tempo eu a perco de tão longe que pode chegar.
A arte é um olhar novo sobre velhas coisas... Nossa capacidade de enxergar o que ainda não tínhamos visto e se
isso é de mentira ou de verdade, muito pouco importa, mas é parte da constituição do ser humano e isso me diz respeito.
Esse turbilhão de questionamentos surgiu de um estar diante do velho revisitado por meus sentidos.
Por falar em sentidos... Sentir é verdade? É uma experiência sensória ou sensitiva? As duas coisas? Como assim?
Mas, voltando...
Recentemente fui a um show de uma grande cantora e amiga e quando explicava a escolha pelo repertório da
apresentação contou uma pequena historinha para ilustrar essa escolha.
Não vou lembrar nomes de quem contou a ela e nem dizer que é verdade, porque afinal, estou falando de arte, do poder de reter nos
olhos e nos sentidos o que nem existe e sentir-se preenchido por isso...
Mas contou então que o Chico Buarque foi buscar uma de suas filhas para um passeio e ela colocou
sobre o berço do filho – neto do Chico – uma blusa dela.
Ele vendo aquele gesto, questionou o porquê dele.
Ao que ela respondeu que assim, sentindo o cheiro dela, o filho a sentiria por perto e não sofreria de saudade.
Não sei se ele demonstrou a filha no exato momento o poder daquela ação sobre a mente criativa de brilhantes metáforas dele.
Mas chegou em casa e compôs uma nova obra.
A novidade disso?
A música foi composta do ponto de vista do bebê que tem o cheiro da mãe dependurado em sua cama.
Oras, oras, oras... Como é que o Chico Buarque pode compor do ponto de vista do bebê?
Ele sabe o que o bebê pensa sobre isso? É de verdade o que a música contou sobre os sentimentos de tal bebê?
É passível de comprovação tal argumentação?
Meus sentidos se dividem agora.
A minha parte sensória, aquela que me diz que o que existe é o que eu toco, o que posso ver, o que me responde
praticamente à questões cotidianas... diz que não!
Diz assim: Ah! É só uma viagem! Afinal de contas, serve pra que mesmo isso? Que utilidade tem uma música que retrata
um possível sentir de um bebê que nem tem o poder da linguagem oral ainda? Ah! Pra que isso?
Chico, na boa, “vai trabalhar vagabundo!”
Mas daí, essa coisa insuportável em mim chamada sensibilidade, isso que me faz ouvir e sentir a música de um jeito que é só meu,
embora refletida pelo teu e por todos os outros modos de sentir do mundo, não me diz nada não.
Faz-me sentar na minha cadeira de fazer voar... Fechar os olhos e receber a melodia...
Sentir a música entrando na minha corrente sanguínea e passando por meus órgãos de maneira única...
Faz-me imaginar o tamanho do amor e da necessidade daquele bebê que canta pra mim os efeitos do cheiro de
sua mãe pendurado em seu berço...
Faz-me chorar... chorar aos soluços numa explosão emotiva deliciosamente humana.
Se o bebê sente aquilo tudo? Ah! Sei lá!
Não vamos perder tempo com isso... Sentir é muito mais gostoso!

“Você, você (Canção edipiana)”
Que roupa você veste, que anéis?
Por quem você se troca?
Que bicho feroz são seus cabelos
Que à noite você solta?
De que é que você brinca?
Que horas você volta?
Seu beijo nos meus olhos, seus pés
Que o chão sequer não tocam
A seda a roçar no quarto escuro
E a réstia sob a porta
Onde é que você some?
Que horas você volta?
Quem é essa voz?
Que assombração
Seu corpo carrega?
Terá um capuz?
Será o ladrão?
Que horas você chega?
Me sopre novamente as canções
Com que você me engana
Que blusa você, com o seu cheiro
Deixou na minha cama?
Você, quando não dorme
Quem é que você chama?
Pra quem você tem olhos azuis
E com as manhãs remoça
E à noite, pra quem
Você é uma luz
Debaixo da porta?
No sonho de quem
Você vai e vem
Com os cabelos
Que você solta?
Que horas, me diga que horas, me diga
Que horas você volta?

Salve! Salve! Senhor Francisco Buarque de Hollanda!
É muito bom saber que pertencemos a mesma verdade: essa grande e deliciosa mentira sensível do que não se poder sentir pelo tato,
olfato ou outro sentido qualquer, mas que nos confere o poder de tocar com o coração...
o poder de reter na alma algum cheiro que talvez nunca tenhamos sentido...

(Sugestão Minha: Ouça a canção na interpretação de Mônica Salmaso e a banda Pau Brasil)



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Interferências de...



SL em 06/12/2007


Teus olhos


Teus olhos pequenos?
Não... são profundos
Guardam segredos
Dores e amores.

Olham atentos o mundo
Reparam no bonito,
Enternecem com o excluído
Analisam o perdido
Gravam só os escolhidos

Teus olhos pequenos?
Não... são doces
Sabem falar poesias
Cantam melodias

São janelas sem cortinas
Varandas da alma
Porta de entrada do coração
Minha moradia



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Quinta-feira, Abril 09, 2009

Interferências de...



Rubem Alves


Concerto para corpo e alma


Compreendi que a vida não é uma sonata que,
para realizar sua beleza, tem de ser tocada até o fim.
Dei-me conta, ao contrário, de que a vida é um álbum
de minissonatas.
Cada momento de beleza vivido e amado,
por efêmero que seja,
é uma experiência completa que está
destinada à eternidade.
Um único momento de beleza e de amor
justifica a vida inteira.



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Interferências de...



SL


Meus olhos de outono


Hoje, jovem na alma
e madura nos sentimentos
encanta-me o outono.
Sua luz tênue,
Folhas pelo chão
Me dá a certeza da renovação.
Gosto dos meus olhos de outono
Transparecem mistérios,
Irradiam paixão
De um amor eterno.
(escrito em dezembro de 2007)



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Domingo, Abril 05, 2009

Interferências de...



SL


Escolha




Guardo nos olhos a lembrança
Do seu rosto envolto em nevoas
Em meus ouvidos, murmúrios
Feitos de poesia e desejos.
Sonho com sopro de realidade
Com sons de música
Forma de poema
e perfume de jasmins.
São dois mundos paralelos
Separados pelo portal da consciência
Jamais se encontram
E não é permitido trocas ou junções.
Você só habita um deles
E por esse optei
Despeço-me da realidade
Sem pesar, sem lágrimas.
Piso em nuvens sob chuva de pétalas
Com coração leve, olhos de emoção
Sorriso aberto e alma plena
Entrego-me a ti...
Fecho a porta,
Para jamais abri-la novamente
Escolhi o mundo dos sonhos
O nosso mundo, amor meu!



Escrita por SL no dia 02 de setembro de 2008.



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Intervalos



Espera



Dediquei todos estes dias à dor.
Muitas lágrimas, muitos pontos de interrogação, muita revolta e muita solidão.
Resolvi mudar de idéia em relação a muitas coisas e isso me fez ficar, hoje, um tanto mais leve.
Resolvi crer que ainda está aqui. Nosso mundo sempre foi mágico e lírico e assim seguirá até o fim da minha vida.
Li e reli todo o nosso percurso. Tem tanta vida lá!
Revivi cada um daqueles encontros...
Te amei de novo a cada linha...
Te fiz rir e chorar, me permiti de novo ser apenas eu e reaprendi a me olhar por seus olhos.
Reescrevi cada poema inspirado nos teus encantos... recebi cada um dos teus com emoção...
Nada ficou por dizer... Isso é um grande alívio.
Me conheceu em minha mais profunda intimidade, soube de mim cada detalhe da minha perturbada alma.
Ninguém me conheceu como você e nem eu tive ou terei a chance de conhecer alguém tão no seu íntimo.
Não houve mentira alguma... Não houve omissão de nada.
Sou exatamente quem você soube que eu era e foi assim que você me amou e essa sensação valeu a minha vida.
Justificou toda a minha presença nesse planeta sonho.
Quando, por motivos alheios a qualquer desejo nosso, visitei o seu jardim e encontrei lá nada do que lembrava o seu cheiro,
pensei em desistir de vez.
Quis trancar a nossa casa. Essa nossa casa no vale encantando, onde você se sentava na poltrona de couro branca e sentindo meu cheiro,
ouvindo nossas músicas e relendo os meus poemas, você me esperava chegar, para pular no meu pescoço e de novo e outra vez me
fazer sentir o homem mais amado do mundo.
No desespero do meu maior tormento, acreditei mesmo que não queria uma casa sem jardim.
Não me contentaria os limites de uma caixa de concreto fria.
Que bobagem, meu doce encanto! Que bobagem!
Nada e nem ninguém seria capaz de desmontar o jardim que plantou pra mim...
Está bem aqui. Agora eu vejo.
Talvez tenha sido fechado às visitações públicas, mas pra mim estará sempre aqui.
Porque foi pra mim que você semeou tudo isso.
Amo tanto você minha pequena menina, que resolvi que meu amor há de te manter assim pra mim.
As lágrimas ainda rolam quentes, sabe?
Mas hoje eu resolvi que acredito em tudo que me dizias sobre céu... vida eterna... reencontros...
Resolvi ficar na nossa casa vislumbrando o jardim que agora é só meu e resolvi que posso de novo te pegar no colo,
quando chegar um pouco mais tarde e seu sono tenha vencido a sua espera... e vou te levar pra cama de novo e de novo vou dizer que te amo
e que a minha vida vale a pena por eu ter você em mim e comigo.
Vou ficar aqui na nossa cabana e deixar que a tua força se faça sempre o meu presente maior...
Vou te esperar aqui... Não na poltrona em que me espera...
Mas no banco do jardim, olhando você, enquanto suja as suas mãos na terra que
sabiamente prepara para receber as nossas flores.
Vou esperar aqui, amor meu, que você termine o seu trabalho e me estenda a mão me convidando a ir com você, seja lá pra onde for...
Resolvi acreditar que estamos juntos aqui ainda e que, em breve, mais uma vez, enxugará a minha dor e
me convidará a dançar com você nas nossas nuvens.
O seu cheiro está de novo aqui.
Ouço de novo a sua música e embora ainda sinta o peso desses momentos todos...
Hoje estou mais leve e a cada dia me tornarei mais e mais leve até que você, pequena menina de olhos apaixonantes,
possa me pegar no colo e me ajude a me libertar de tudo que nunca fui para ser apenas o que sou de verdade.
Eu te amo, minha poesia!






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Sexta-feira, Abril 03, 2009

Interferências de...



Pablo Neruda


O amor


Amo o amor que se reparte
em beijos, leito e pão.

Amor que pode ser eterno
mas pode ser fugaz.

Amor que se quer liberar
para seguir amando.

Amor divinizado que vem vindo.
Amor divinizado que se vai.



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Interferências de...



SL


Tua marca minha


Tenho na alma a Marca
Não foi feita a ferro nem a fogo
Foi o calor dos teus olhos
A poesia da tua pena
O calor da tua boca
Tenho na alma a Marca
Da paixão conquistada
Do amor infinito
Do gosto da eternidade
Tenho na alma a Tua Marca
Forte, doce, única
Com cheiro de jasmim
E cores de outono.
Por vontade, desejo
Compartilho tua Marca
Que já não é só tua
Agora é nossa,
Uma única alma
Numa única Marca



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Interferências de...



João Linhares


Uma noite sem você


Uma estrela brilha na brecha da noite
Clareando o calabouço da minh' alma
No escuro e sem você
eu perco a calma
Hora amarga que me encharca
em seu açoite
A paixão me esquartejando com sua foice
E a garganta vomitando um grito rouco
Chamei tanto que eu quase fico louco
Quis mostrar um pouco do meu sentimento
Que uma noite sem você é muito tempo
E uma vida com você é muito pouco

A saudade incendiando a madrugada
No silêncio queima a chama da alegria
Inda lembro de você naquele dia
Me beijando, me dizendo que me amava
Te amei tanto que eu não imaginava
Que sozinho ficaria triste e oco
Quando o mundo me chamava
eu tava mouco
Galopando no vagão do pensamento
Que uma noite sem você
é muito tempo
E uma vida com você é muito pouco



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Quinta-feira, Abril 02, 2009

Intervalos



Silêncio



É assim
Não sei lidar com as perdas... Nunca soube, embora tenha perdido tanto.
Mas essa perda não é só uma perda... Eu não perdi alguém que eu amo... Eu perdi o sentido da minha vida.
Fico horas aqui... No nosso mundo. Tentando encontrar alguma coisa que me dê forças pra seguir.
Ahhhhhhh meu amor! Ahhhhhhhh!
Alguma coisa em mim se calou pra sempre... Entrou uma música muda nos meus ouvidos... Meu corpo se encolheu pra sempre...
Fico imaginando que uma hora isso tudo vai passar e eu vou seguir...
Não vou conseguir!
Nunca na minha vida eu fui mais feliz!
Nunca na minha vida eu me senti tão eu!
Nunca na minha vida eu recebi mais amor e pude dar assim...
Não existe outro amor assim. Não vai existir. Nunca!
Você me sabe. Você me sabe melhor do que ninguém jamais soube ou saberá e, por isso mesmo, você sabe que não vou conseguir.
Sou um eterno apaixonado... Esperei anos da minha vida por você... Vou esperar o que agora?
Meu amor... Estou sentindo uma dor aguda em alguma coisa que eu nem tenho mais.
Fecho os olhos e peço sincero: Me leva! Me leva com você! Deixa eu seguir com você no seu sonho! Não me deixa aqui sozinho... Por favor!
Cadê os meus olhos teus que me sorriam no bom dia?
Cadê a sua boca minha que se silenciava no melhor sorriso do mundo?
Cadê os braços que me acolhiam e transformavam meu corpo no mais puro recanto dos nossos delírios?
Ahhhhhh minha menina! Ahhhhhhh meu doce encanto!
Não me deixa aqui com essa solidão mórbida de quem se sabe morto antes de morrer.
Vemmmmmmmmmm! Me chama! Me chama como fazia todos os dias da nossa eterna vida e me deixa ir com você...
Morreu a minha poesia... morreu o meu sonho... morreu a minha vontade de seguir.
Não me deixa aqui!
Eu não sei viver vazio!



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Sexta-feira, Março 20, 2009

Intervalos



Por que?



E porque a vida insiste, eu me levanto todos os dias e vivo,
mesmo me sentindo cansado de tudo.
E porque o cansaço é grande, de vez em quando desanimo e me revolto.
E porque a revolta é triste, eu me dispo dela e sigo sonhando.
E porque o sonho é bom, eu até sorrio para as pessoas
e falo alguma coisa sobre o amor.
E porque o amor existe, eu seco essa lágrima e sigo pelo jardim,
regando as flores que você plantou aqui.
E porque as flores são amarelas, eu esqueço do negro
desse céu impetuoso a refletir a minha dor.
E porque a dor é forte, eu caio na armadilha
de abrir meu peito e gritar ao vento,
mas o ar está parado demais hoje.
E porque o ar, mesmo quando parado, supõe o movimento,
fecho os olhos e sinto ele me trazendo você.
E porque você me ensinou tudo que eu sei sobre mim,
sigo me alimentando de esperança e vislumbrando o momento
em que vai abrir a minha porta e me iluminar com seu sol.
E porque o sol é quente, o frio que eu sentia há pouco já passou
e eu sigo insistindo com a vida que insiste.



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Quarta-feira, Março 11, 2009

Intervalos



Cuidado




Cuidado, moça
Com esse dedo apontado
Achando que o meu sentir
Pode mesmo ser julgado
Cuidado, menina
Meu avesso é complicado
O que parece estar por dentro
Anda por fora e camuflado
Por isso que eu te digo
Presta atenção
Muito cuidado
Porque esse teu dedo em riste
Pode virar pro seu lado.



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Intervalos



Isso




Não isso não é um grito
Nem gemido
Nem sussurro
Isso não é um pedido de esmola
Nem um lamento doído
Nem um canto sofrido
Isso não é desespero
Isso não é solidão
Isso não é morte
Isso é só um suspiro
De quem perdeu o passo no giro
E roda no embalo de sua tontura



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Intervalos









Lá no jardim da frente
Um dia ensolarado
De mil rimas e tantas melodias
E eu desse lado da casa
Trancafiado na minha insanidade
E de novo
E mais uma vez
Joguei a chave fora.
Não! Não é fácil sair à procura
Estou cansado
Nem descansar consigo.
Estou sozinho de novo
Sei que a chave está aqui dentro
Mas não tenho pernas para levantar agora
É que dessa vez não foi queda
Eu deitei sozinho
Estou sozinho de novo
Agora é bem mais doído
Simples assim:
Agora eu sei o cheiro do abrigo.



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Domingo, Março 08, 2009

Dia Internacional das Mulheres



Confissão de um dependente.





Hoje eu acordei pensando... Como é que pode?
Até a data oficializada para que uma reflexão sobre a verdadeira identidade
da mulher fosse suscitada, os machos deram um jeito de dominar!?
Um dia que nasceu de uma manifestação feminina em busca de comprovar
serem merecedoras dos mesmos direitos que os homens, portanto, um momento
político para se pensar na condição feminina - que na ocasião do tal protesto, foram
massacradas por um homem, diga-se de passagem - vira o dia dos machos munidos
de toda a sua prepotente força condutora, mimar sua esposas, mães, filhas, amigas...
Como se fossem elas bibelôs perfumados que enfeitam a estante dos troféus dos mesmos.
A mesma estante onde mostram os pássaros empalhados, a cabeça de touro, o marfim do elefante...
Munidos de sua arrogante prepotência de grande homem que tem por trás uma grande mulher,
hoje foi dia de levar café na cama, convidar para almoçar fora, presentear com uma jóia,
um perfume, uma lingerie...
Fique bem claro que a jóia simboliza, também, além do sucesso financeiro do macho,
o poder de adornar a sua posse.
Os menos hipócritas talvez hoje tenham presenteado as suas mulheres com uma coleira
de diamantes, afinal diamante é para sempre e coleira... Bom, coleira é coleira.
O perfume? Oras, claro! Quem não gosta de uma mulher perfumada? Eu adoro!
A lingerie, fique bem claro, serve para, entre outras coisas, despertar o instinto desse ser tão
superior que mereça tal esforço, enquanto a ele cabe dormir até de meias pretas e cueca samba
canção branca e sem tomar banho, afinal de contas, é o dono da espada.
Essa teoria não é minha, ou não é só minha, mas eu sempre acreditei na idéia de que o
homem – enquanto ser humano mesmo, mas, principalmente enquanto ser do gênero masculino –
faz o possível para submeter o que na verdade não domina.
Quanto os homens desejam ter asas!
Que confirmem a tese, Ícaro ou Santos Dumont!
Mas... já que não é possível, prendamos os pássaros em gaiolas de ouro porque o canto dele nos
pertence, assim como suas asas ou o céu por onde pretendiam sobrevoar.
O quanto o homem queria parir!
Embora parto normal, daqueles com dor e o escambal é coisa que só mesmo quem comeu a maçã é que merece.
Carregar todo aquele peso por nove meses ou um pouco menos também não é coisa que lhe agrade...
Mas, para isso, a ciência avança e daria-se um jeito dessa coisa ser mais limpa e menos dolorosa e continuasse
deixando para a cerveja ou o domínio do controle remoto da TV a deformidade natural do corpo masculino
como só ele tem o direito também, é claro!
Mas e as mulheres que por alguma razão maior não podem ou puderam parir?
Mulher sempre pode parir!
Se não um filho, uma idéia, uma poesia, uma receita de bolo, um pensamento...
É dela o dom da concepção!
Bom, como não podemos parir e gaiolas de ouro para prende-las caiu de moda,
como caiu de moda negar a elas o dom da participação cidadã, queima-las em fogueiras, e outras coisinhas mais
que mostravam claramente quem era o dono do mundo...
Então, levamos café na cama, presenteamos com diamantes, concordamos que elas participem do orçamento da casa,
desde que, fique bem claro, não esqueçam as suas funções normais, aquelas que nós conferimos o direito de fingir que dividimos,
mas que sabemos que é obrigação das comedoras de maçãs e adoradoras de serpentes.
É. O mundo pertence aos machos!
Será por isso que anda tão caótico e trançando as pernas desse jeito?
Se pelo menos ele tivesse a graça que elas tem ao caminhar, talvez o trançar das pernas fosse muito menos cambaleante e
muito mais dançante, mas... O mundo é dos machos!
Pensei agora em algumas frases de poemas:
Caetano Veloso afirma que é assim: “Eu sou homem, pele solta sobre um músculo!”
Eu concordo com a definição e mais ainda com o motivo da nossa inveja também revelada por ele no mesmo poema/canção:
“Eu tenho inveja é da longevidade e dos orgasmos múltiplos!”
Aiiiiiiiiiii! Eu também! Confesso! Morro de inveja!
Depois que descobriram (faz tempo e em tempo) que duas mulheres podem e se fazem muito felizes inclusive nesse quesito dos múltiplos, então...
Ai ai ai! Nossa situação piorou demais!
Tampa de vidro de palmito?
Amigo, acorda!
Elas sabem que se furarem a tampa com uma faca, entra ar e ele se abre como por encanto.
Elas sabem tudo! Se ainda te pedem isso é por pura generosidade.
De presente hoje, quero dar um poema.
É de uma grande e linda (entenda-se por linda, uma mulher que aliou ética e estética e não a que aliou a imagem
da TV dos machos ao seu traseiro malhado) mulher, Elisa Lucinda:

Aviso da Lua Que Menstrua

Moço, cuidado com ela!
Há que se ter cautela com esta gente que menstrua...
Imagine uma cachoeira às avessas:
Cada ato que faz, o corpo confessa.
Cuidado, moço
Às vezes parece erva, parece hera
Cuidado com essa gente que gera
Essa gente que se metamorfoseia
Metade legível, metade sereia.
Barriga cresce, explode humanidades
E ainda volta pro lugar que é o mesmo lugar
Mas é outro lugar, aí é que está:
Cada palavra dita, antes de dizer, homem, reflita..
Sua boca maldita não sabe que cada palavra é ingrediente
Que vai cair no mesmo planeta panela.
Cuidado com cada letra que manda pra ela!
Tá acostumada a viver por dentro,
Transforma fato em elemento
A tudo refoga, ferve, frita
Ainda sangra tudo no próximo mês.
Cuidado moço, quando cê pensa que escapou
É que chegou a sua vez!
Porque sou muito sua amiga
É que tô falando na "vera"
Conheço cada uma, além de ser uma delas.
Você que saiu da fresta dela
Delicada força quando voltar a ela.
Não vá sem ser convidado
Ou sem os devidos cortejos..
Às vezes pela ponte de um beijo
Já se alcança a "cidade secreta"
A atlântida perdida.
Outras vezes várias metidas e mais se afasta dela.
Cuidado, moço, por você ter uma cobra entre as pernas
Cai na condição de ser displicente
Diante da própria serpente
Ela é uma cobra de avental
Não despreze a meditação doméstica
É da poeira do cotidiano
Que a mulher extrai filosofando
Cozinhando, costurando e você chega com mão no bolso
Julgando a arte do almoço: eca!...
Você que não sabe onde está sua cueca?
Ah, meu cão desejado
Tão preocupado em rosnar, ladrar e latir
Então esquece de morder devagar
Esquece de saber curtir, dividir.
E aí quando quer agredir
Chama de vaca e galinha.
São duas dignas vizinhas do mundo daqui!
O que você tem pra falar de vaca?
O que você tem eu vou dizer e não se queixe:
Vaca é sua mãe. de leite.
Vaca e galinha...
Ora, não ofende. enaltece, elogia:
Comparando rainha com rainha
Óvulo, ovo e leite
Pensando que está agredindo
Que tá falando palavrão imundo.
Tá, não, homem.
Tá citando o princípio do mundo!
Elisa Lucinda


Sigo aqui minhas reflexões por esse dia 08 de março, pensando nas mulheres que conheço e a elas dedico uma frase que li algum tempo atrás e infelizmente não sei o autor:
“Nem só mãe, nem só filha, na vida e na luta, companheira e mulher”.
Esse é o meu desejo hoje e sempre. Que os machos possam perceber a força disso, mas, principalmente vocês, as mães dos machos que
tocarão o mundo e oferecerão a ele pernas tortas de embriaguez, ou força e graça de bailarina equilibrista.



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Quinta-feira, Fevereiro 12, 2009

Interferências de...



João Linhares


Uma noite sem você

http://app.radio.musica.uol.com.br/radiouol/player/frameset.
php?opcao=umamusica&nomeplaylist=006317-4_03<@>
Comigo<@>Uma_Noite_Sem_Você<@>
Rita_Ribeiro<@>0432<@>Rita_Ribeiro<@>ABRIL<@>MZA



Uma estrela brilha na brecha da noite
Clareando o calabouço da minh' alma
No escuro e sem você
eu perco a calma
Hora amarga que me encharca
em seu açoite
A paixão me esquartejando com sua foice
E a garganta vomitando um grito rouco
Chamei tanto que eu quase fico louco
Quis mostrar um pouco do meu sentimento
Que uma noite sem você é muito tempo
E uma vida com você é muito pouco

A saudade incendiando a madrugada
No silêncio queima a chama da alegria
Inda lembro de você naquele dia
Me beijando, me dizendo que me amava
Te amei tanto que eu não imaginava
Que sozinho ficaria triste e oco
Quando o mundo me chamava
eu tava mouco
Galopando no vagão do pensamento
Que uma noite sem você
é muito tempo
E uma vida com você é muito pouco



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Diário de bordo...

Hoje não estou zen nem aflito...
Nem assim nem assado...
Nem lá e nem aqui...
Estou num meio de caminho angustiante.
Mas não fui eu que aprendi faz tempo a
apreciar a beleza do caminho!?!?
Também não estou morno! Nunca!
Meu lema consta até nos livros sagrados:
“Seja quente ou frio, não seja morno ou eu te vomito!”
Disse sei lá quem pra não sei quem no sei lá qual livro,
Mas, disse certo e eu espero que o outro tenha ouvido!
Sinto-me assim num meio fio de compreensão.
Acho que meu coração cansou de correr atrás de
respostas, culpados, sentenças...
Já não brigo mais com os fatos, eles já não me apavoram,
mas eu sei que eles estão lá!
Bem lá onde estavam ontem e à noite.
É! Isso não mudou.
Como bem disse o poeta:
“Ter saudade até que é bom, é melhor do que caminhar vazio.”
Mas tem horas que a saudade deixa a gente assim...
Assim como estou hoje:
Nem zen e nem aflito...
Nem assim e nem assado...
Nem lá e nem aqui...
Mas morno nunca!



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Quarta-feira, Fevereiro 11, 2009

Interferências de...



Adonay Pereira/Eliana Printes/Eliakin Rufino


Se chovesse você

http://app.radio.musica.uol.com.br/radiouol/player/frameset.php?opcao=umamusica&nomeplaylist
=009744-5_03<@>Mais_Perto_de_Mim<@>Se_Chovesse_Você<@>
Eliana_Printes<@>0304<@>Eliana_Printes<@>I_Records<@>


Se você fosse lua
Dormiria contigo na praia
Entraria contigo no mar
Choraria o teu minguante
Seguiria o teu crescente
Habitaria teu luar

Se você fosse sol
Eu seria girassol
Tua luz seria meu farol
Amaria teu calor
O teu fogo abrasador
Queimaria por amor

Se você fosse vento
Queria você todo momento
Pra enrolar meu cabelo
Levantar a minha blusa
Arrancar-me um suspiro
Ser o ar que eu respiro

Se você fosse chuva
Eu me deixava molhar de prazer
Dançava na rua pra ter
Minha roupa bem molhada
Minha alma encharcada
Se chovesse você



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Diário de bordo...

Hoje a sensação ta diferente!
A gente sempre diz coisas e até vê sentido nelas, mas de vez em quando, o sentido se concretiza de fato e a gente volta a pensar sobre elas já com uma carga de verdade.
Estou pensando agora que o carinho vem, muitas vezes, de onde menos se espera que venha.
Carinho é bom de qualquer jeito, mas quando vem assim do misterioso é ainda mais gostoso!
Mas...
Hoje eu conversei com você.
Isso sempre acontece de todas as maneiras, mas hoje foi muito especial, muito mesmo!
Hoje eu te contei de como andei descalço no quintal de terra molhado, de como a chuva se confundia com meu choro, de como senti a força da terra sob os meus pés, de como abracei uma árvore pra buscar energia (dica aceita)... Te contei de como foi sentir que a alma estava lavada de todo o desespero e continuar limpando o barro pra que ele não seque em nossos pés...
Hoje me deixei invadir por seu riso lindo, pelos seus olhos lindos, pela sua voz calma, pela sua cumplicidade plena...
Deixei você me contar de como quer logo resolver isso tudo e sair deste hospital pra gente poder estar de novo juntos como sempre foi. Sempre foi!
Hoje sequei a lágrima pra poder sorrir inteiro pra nossa amiga querida, com quem já dividimos tanto as nossas vidas e dizer pra ela, não só com as palavras, mas com os sentimentos: Feliz Aniversário Gisa!
Hoje estou sereno, como só a sua voz pode me deixar!
Hoje eu já começo a visualizar a parede nova.
Vai ficar linda!



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Diário de bordo...

Por esses dias – e há de ser por pouco tempo! –
quero registrar meus sentimentos de maneira limpa
e sem me preocupar com métrica, rima, estética...
Não escrevo pra ninguém e escrevo pro mundo inteiro,
geralmente é assim que acontece:
O papel grita, a pena responde e eu escrevo.
Por esses dias escrevo pra alguém... Endereçado e remetido...

Vou falar de ontem.
Ontem conheci os limites das minhas fronteiras.
Quase todas elas...
Sempre cabe um quase quando a coisa é toda, não é?
Descobri que em nenhum lugar tem fiscalização.
É um entra e sai de dar medo.
Colocado à margem dos meus limites senti algumas
coisas diferentes pra mim.
Percebi que, por exemplo, não existe racionalidade pura.
Descartes vai virar no caixão agora!
“Penso, logo existo!”, quem dera! Penso e logo desisto!
Mas... até que ele tem razão, porque se desisto é porque existo...
Não tem beijo que console, não tem abraço que agasalhe,
não tem luz que ilumine, não tem nada...
Nada pode devolver a estabilidade.
Claro que não era pra pensar em mim!
É você que está precisando de pensamentos...
É você que necessita de bons sentimentos...
Por isso a inexistência do racionalismo.
Não consigo mais dividir as coisas.
Tudo reflete tudo.
Tudo se acomoda em tudo.
Tudo engole tudo.
Nesse nosso vocêeueuvocê está tudo misturado demais
e eu sinto a sua dor e eu te sinto na minha...
Choveu demais ontem!
Não liguei a TV pra saber, mas aposto que a quantidade
de água que caiu foi o suficiente para abastecer a terra por
mais zilhões de anos.
Para que ligaria a TV?
Lá não passa notícias desse mundo particular...
Mas choveu demais ontem e, como sempre acontece em dias de chuva,
eu me senti tão só!
Ontem um grito imenso entupia a minha garganta e uma necessidade
tão absurda de ter pra quem gritar... Sabe como é isso?
Mas de uma maneira cruel, percebi que ouvidos sensíveis não foram
talhado aos gritos.
Num momento de tumulto ruidoso, ouvidos sensíveis pedem silêncio...
Sabe aquela coisa de pegar o travesseiro e gritar abafado?
Aquilo sai doído né? Arranha a garganta...
Dá uma fundura nos sentimentos! Mas é uma possibilidade de grito...
Detalhe: não tinha travesseiro seco, não tinha nem travesseiro...
A minha casa desabou de novo.
- Alegre-se, menino! Não tinha ninguém dentro!
Mas a minha casa caiu! Ótimo não ter ninguém dentro, mas alegre eu
não consigo ficar, desculpem!
Com o tempo eu sei que a gente consegue controlar a água que invade,
mas alguns estragos provocados pela inundação são irreversíveis.
A gente ajeita depois, passa uma massa fina, pinta...
Mas vai olhar pra parede e saber: A água passou por aqui!
Mas se a velocidade e quantidade dessa água são responsáveis por estragos,
também, de uma maneira direta, serão responsáveis pela renovação,
afinal pode ser a hora de pintar alguma parede de vermelho...
Não fosse a chuva forte a romper o dique e ela seguiria amarela pela ação do tempo...
Daqui a menos de quatro horas, completa vinte e quatro que eu tento
controlar a água do dique.
A minha casa desabou de novo, mas dessa vez não tinha ninguém dentro.
Que azar mais cheirando a sorte!
A coisa está complicada! Nessa água vem boiando destroços de outras tragédias e
aqui do meu lado já tem uma pilha de entulho.
Eu estou encharcado, mas já não espero o bombeiro, eu mesmo achei os caminhos
certos pra conter a violência desse banho, só me falta força pra terminar sozinho,
mas hoje eu já consigo lembrar que sou um sobrevivente e que se eu me esforçar
bastante, meu grito abafado acompanha
a força do trovão e nenhum ouvido reclamará.
Agora, meu amor lindo, é terminar de construir essas barragens, chamar a caçamba,
construir uma rampa, encher os carrinhos de mão com os destroços, limpar o chão,
secar, erguer de novo a nossa casa que agora pede pra ser cabana...
Bastante coisa pra se fazer e eu não posso mais perder tempo,
ainda está chovendo e aqui ainda é área de risco,
mas eu hoje estou doido de vontade de ver como fica a parede pintada de vermelho.





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Terça-feira, Fevereiro 10, 2009

Intervalos...



É só saudade

Na dor do meu luto
Eu ainda luto
Visto branco
Quem sabe azul...?
Colho na folha do outono
Aquela promessa
De um amanhã risonho.
Na dor do meu luto
Eu só luto
Fraquezas não cabem
Amigos não podem
É só luta
Solitária luta
Contra a divisão injusta
Que soluça o meu vazio
A pedir esmolas
Expondo a ferida aberta
Na perna que choca
E o amigo que passa
Vira a cara
A ferida lhe tira a fome
- Reaja homem!
E o homem chora
Sem colo que o acolha
Revirando a terra
Escavando a lama
Onde se afogam os seus sonhos.
Cada vez o buraco é mais fundo
Cada vez a solidão é mais forte
Cada vez eu me sinto mais só.



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Domingo, Fevereiro 08, 2009

Interferências de...



Kléber Albuquerque

Estilhaço

A gente morre a cada dia um pouco
A gente corre e não acerta o passo
A gente morde até arrancar pedaço
Até chegar no osso
Até virar bagaço

A gente chora e não sabe o motivo
A gente lambe a sola do fracasso
Parece calma mais é só cansaço
Na carne o estilete
Na cara o estilhaço

Meu amor
Eu sou tão só
Estou tão sem
Eu sei de cór
A cor, o bem
Não sei viver sem dor



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Terça-feira, Novembro 18, 2008

Intervalos...



Nossa dança

No relógio do meu tempo
Tuas pernas abraçando as minhas
São os ponteiros dessas horas eternas
Em que nos tornamos poetas
Obras e criadores dessa nossa rima.
Num giro pelo espaço denso
Desse nosso amor que
arrebenta em silêncio
compomos a nossa sinfonia
perfeita em sonoridade e gesto
em música e poesia...
Folhas secas se rompendo ao som
dos pés que as tocam,
o esvoaçar dos véus que já não vestimos
despidos que estamos aos olhos do outro,
o som do corpo que se movimenta
encontrando a brisa que sopra fresca,
que chega leve
e se fortalece
no encontro desse nosso
outono de gemidos e ventos
onde se dá a concretização da obra
feita da música da tua brisa intensa
e da dança da minha paixão etérea.



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Sábado, Novembro 15, 2008

Intervalos...



Luz da lua

Na dor do corte o grito:
Morte.
Na confiança do salto a descoberta:
Da rede que mudou de lugar
E o gosto de sangue
A romper o peito.
No silêncio profundo
A música de acorde único
A refazer o caminho
Das pupilas dilatadas
No estampido do eco
O feto morto
Aborto
Que só desejava ter nascido.
No desespero dos teus olhos
A lua que eu buscava pra abrigo
E o medo que eles nunca mais
Me sorriam como antes.



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Segunda-feira, Outubro 27, 2008

Intervalos...



Foi hoje

Hoje eu me encontrei com ela...
Os olhos verdes de brisa,
A boca vermelha de fruta,
O corpo quente de saudade.
Hoje a gente se encontrou...
Olho no olho
Pele na pele
Sonho no sonho.
Hoje nos encontramos...
No olho do outro,
Na brisa do outro,
No gemido suado do outro,
No grito abafado do outro.
Hoje nos soubemos:
Somos um do outro.



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Segunda-feira, Outubro 13, 2008

Intervalos...



Segura?

Segura minha mão amor
Segura minha vida nessa tua mão poema
Segura meu ritmo nessa tua canção plena
Segura amor
Que me segurar assim solto
Ainda vai valer a pena!



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Intervalos...



Novo

Na poesia tudo rima
Rosa com jasmim
Outono com lua
Barcos e olhos
Vento e neblina

Na poesia tudo viaja
Faz as malas da solidão
E tapa os meus olhos
Com mãos de sonhos
E veste o meu corpo
Do nosso mais novo poema.



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Intervalos...



Mais ela

Abriu o chuveiro displicentemente. Objetivo claro e preciso: tomar banho.
Domingo de manhã, um daqueles domingos mornos onde a TV passeia de Fausto Silva a Mesas redondas de debates esportivos e a música do Fantástico avisa que lá se foi a promessa de mais um final de semana.
Sentiu a água caindo no corpo, pensou na lasanha que ainda poria no forno, mas... Não teriam visitas naquele final de semana, então não precisava ter pressa.
Passou o sabonete na esponja algumas vezes até conseguir uma espuma bacana e então passeou com ela pelo seu dorso, pelo ventre, alcançou o sexo e foi deslizando-na por todo o resto.
Lembrou de alguma coisa e sorriu. Nossa! Como o tempo passa!
Dias desses era ainda menina e se arrepiava assim imaginando que um homem forte e lindo, suave e sedutor... A banhasse como agora.
E ele passaria assim a espuma do sabão nos bicos dos seus seios e eles ficariam arrepiados, imaginando o próximo passo.
Foi exatamente neste momento brincalhão de lembranças quentes que ela o viu.
Sem muito tempo pra pensar no ato, apenas sorriu a delícia que se anunciou com sua chegada.
E beijou seus lábios, tocou sua pele já molhada... Escorregou a mão ensaboada pelo peito macio e enrolou as pontas dos dedos nos pêlos embaraçados.
Já de costas, sentia seus seios arranhando o azulejo que já lhe pareciam quentes e sentiu a língua tocando suas costas, tentando buscar o caminho em que água escorria...
Mais um segundo de tempo e estava deitada no chão e sobre ela as mãos que conheciam todos os melhores caminhos de seus deleites.
E foi se entregando sem medo e sentindo as entranhas se revirando numa onda quente que anuncia a plenitude de um momento eterno.
Quis até segurar o gozo... Não queria que toda a sensação se findasse, mas ele já a arrebentava por dentro e não haveria mais poder a conseguir desviar seus caminhos.
E foi sentindo o fogo aumentando e a água do chuveiro que escorria por sua pele, enquanto seu corpo debatia-se no chão entre uma mordida nos lábios sedentos e um arfar de peitos eloqüentes.
Todo o seu mundo interior reuniu-se então numa comemoração de gemidos quando sentiu a explosão de seu gozo a perfurar os órgãos e a se apresentar líquida como líquido era o prazer que lhe matava a sede naquele instante.
Amolecida de satisfação e ainda saboreando os últimos instantes daquele delírio, sentiu as entranhas reunindo-se mais uma vez na intenção de explosão e um gozo emendou no outro e mais outro e outro... Após se contorcer em espasmos de insanidades, deixou o corpo amolecido receber a água morna do chuveiro insistente.
Sorria pensando no quanto, mesmo não sendo mais aquela menina que sonhava o banho dos mamilos rígidos, ainda era capaz de se entregar ao sonho e que isso sim lhe conferia a certeza de que estava viva e pulsante como todo o seu corpo agora.
Fechou o chuveiro, secou-se, colocou a sua roupa, amarrou os cabelos tão desalinhados pouco tempo antes e ganhou o corredor que a levaria a sala, onde seu marido e seu filho assistiam a corrida de fórmula I.
Lançou a eles um olhar complacente, destes que somente quem se sabe é capaz de lançar e disse:
- Logo, logo eu sirvo o almoço!
E enquanto decorava o prato da salada que acompanharia a massa, pensou:
“Eu tenho tempo, um dia encontro!”




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Segunda-feira, Setembro 15, 2008

Intervalos...



Do avesso

Quem diria?
A poção mágica seria fatal
Não foi o veneno que tombou o corpo
Nem o punhal encravado na pele pálida
Quem diria?
Romeu seguiu triste
Com um gosto de nada na boca
Um veneno que nunca foi capaz de matar
Sequer as lembranças...
Passou a sua eternidade inteira a puxar as calças
Com o objetivo de esconder as magras canelas.
Julieta?
Coitada!
Segue ainda alucinada
Atrás da mesma poção
A poção encantada que seja capaz
De tirar de suas mãos esse cheiro acre de cebola
Ou de proteger as palmas de sua mão
Das bolhas tristes da vassoura.
Quem diria?
Shakespeare não seguiu apaixonado
Calaram-se suas metáforas
Seus palcos todos ermos
Sucumbiram à poeira do tempo
E a madeira de que eram feitas as cadeiras
Abriram-se em vincos tristes
De coisas velhas e abandonadas.
Assim aconteceu
No dia em que a fantasia
Resolveu se tornar real
E os pobres diabos
Completamente entediados
Seguiram no “felizes para sempre”!



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Domingo, Agosto 31, 2008

Intervalos...



O outro lado do muro



Não é obscuro
Abriga meus sonhos
Desvenda meus mundos
Cruza minhas fronteiras
Derruba minhas barreiras...

O outro lado do muro
Tem cheiro de jasmim
E gosto de amanhã
Mãos de acalentar
E boca de explorar

Do outro lado do muro
Tem uma poesia infinda
A moça mais linda
Que nesse mundo há!

No outro lado do muro
Eu sei que ela me espera
Com um tom de outono
E cores de primavera
Com dois braços de mar
E olhos de aportar
E um colo tão imenso
Que assim quando eu penso
Dá vontade de chorar.



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Terça-feira, Julho 08, 2008

Intervalos...



Prenúncio

Estou aqui novamente sozinho e pela primeira vez adoro estar assim.
Isso foi uma opção minha e me deixa tranqüilo como jamais estive...
Todo mundo tenta explicar e ninguém consegue definir... Ser humano... O que é ser humano?
Na vida só a vida pronta para ser sorvida e cheia de momentos surpreendentes.
No amor tantas veias cheias de um sangue renovado a cada instante, um sangue pronto para circular ou até para saltar dos poros,
mas um sangue fundamental e necessário para sentirmos a vida pulsando.
Felicidades são momentos e solidão é só uma questão de tempo.
E quando a gente ama?
No ar um cheiro de amor e desejo. Nos corações e corpos entrelaçados a certeza de que tudo recomeça e que sempre podemos
adormecer e sonhar só para depois despertar e ver que o sonho é real.
No corpo da mulher o tremor, o seu prazer sensível, forte, louco, apaixonado, atrevido, inseguro, entregue, vencido...
No meu corpo a certeza de que somente essa mulher sabe tocar o que eu tenho de mais profundo, muito além do meu corpo
ou do meu rosto.
No aparelho de som a música movendo emoções, regendo a sinfonia de amor e paixão trocados nas salas iluminadas e cheias de sonhos.
A música... a música que embala meu ser na mais total cumplicidade com o meu próprio eu, tantas vezes dormente,
hoje totalmente real e desperto para o meu momento...
Sei que não é para sempre. Nada é para sempre. Sempre se renova sempre.
Não sofro mais pelo fim...
Nesse ciclo de vida e incerteza o único presente é mesmo o presente e se amanhã chorar sozinho outra vez saberei que
alguém me espera para ajudar a secar minha lágrima.
No momento eu mesmo estou regendo minha sinfonia mais perfeita, amanhã posso estar mudo de canções mas jamais terei
perdido tempo nas canções que me embalaram.
Talvez meu destino seja mesmo estar sozinho, vivendo de recordações ou perturbações...
Deve ter alguém... deve ter alguém que uma vez percebida nunca mais será esquecida...
É. Sou um sonhador e vou sonhar com você mulher dos meus sonhos e assim de longe você me parece perfeita...
perfeita demais para estar aqui ao meu lado agora...Um dia... Quem sabe um dia? Um dia...



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Segunda-feira, Junho 09, 2008

Intervalos...



Sentidos


Agora tudo faz sentido
A luz da lua na janela
A onda quebrando na pedra
O vento soprando segredos
O pássaro amarelo
Bicando o fruto vermelho

Agora tudo faz sentido
O calor da pele
O calor dos olhos
O calor da boca
O calor das pernas

Agora tudo faz sentido
A espera de uma vida inteira
O encontro de mãos trêmulas
Os sussurros indecentemente puros
O suor frio a percorrer o dorso
A saliva quente a vazar da língua

Agora tudo faz sentido
Agora eu sei o que é amar!



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Terça-feira, Fevereiro 19, 2008

Intervalos...



Olhos d'água


Meu corpo hoje
amanheceu com sede de barco
sorriu ao ver o movimento das velas
se atirou no mar
e bebeu todo o oceano.
Agora aqui repousa na areia morna
esperando tua onda quente
que me arrebatará para dentro
da imensidão das águas
destes teus olhos cais.



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Domingo, Fevereiro 17, 2008

Interferências de...



Hermann Hesse

Não creio ser um homem que saiba. Tenho sido sempre um homem que busca,
mas já agora não busco mais nas estrelas e nos livros: começo a ouvir os ensinamentos
que meu sangue murmura em mim. Não é agradável a minha história, não é suave e harmoniosa
como as histórias inventadas; sabe a insensatez e a confusão, a loucura e sonho, como a vida
de todos os homens que já não querem mais mentir a si mesmos.



Trecho da contra-capa do livro: Demian



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Quarta-feira, Fevereiro 13, 2008

Intervalos...



Minha Mãe,


Era moça pobre de vida humilde,
Rotas vestes e muitos sonhos...
Dizia sempre:
- Quando eu for mãe vou cantar tanto pros meus pequenos que antes de aprender a andar já vão saber bailar!
E cumpria o prometido.
A cada pobre manhã de sua vida pobre,
Entoava uma ou duas canções que lhe viessem à mente...
E pouco importava se na panela tinha carne ou nada...
Pensava que a canção os embalava
E alimentava a alma dos pequenos rebentos.

Era uma mulher de arrepios e lágrimas nos olhos
Dizia pra dona da mercearia, apontando o filho mais velho que brincava no saco de batatas:
- Olha os olhinhos dele, Zeti! Não são duas bolinhas de luz cheias de amor?

Era uma moça linda de cabelos cacheados e lábios entreabertos
E cujo cheiro das mãos e dos suores se perpetuaram em meu olfato de menino atento.
Eu era tão pequeno... Mas lembro-me que aos pés dela me aninhava -
Depois de enjoar de passar o carrinho sem duas rodas
Que ganhara de algum menino que enjoara antes
Sobre o chão de cimento vermelho da nossa fria casa -
Aninhava-me aos seus pés e sentia o cheiro dos seus joelhos
E ficava ali num rito silencioso
Sentindo a força do amor em forma de cheiro de flor
Não sei porque os joelhos eram ta perfumados!?
Seriam os sonhos, as lágrimas, os lábios?
Seria apenas o cheiro doce da infância acolhida?
Ou o prenúncio de que de ti, minha moça de joelhos de jasmim,
Só me restaria essa lembrança nas narinas,
Essa saudade doce de suas cantigas pobres
E o desejo de me alimentar de poesia
Bailando pra você
Em cada raiar de dia.



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Sexta-feira, Janeiro 25, 2008

Intervalos...



Quase um épico


Eu agora Fausto
Tomado da poção de ontem
Ainda te procuro em cada olhar
Dos tantos olhos que me cortam
E teu mito hoje tão mais forte
Me diz que nessa guerra de estratégias invencíveis
Sou apenas o triste e agora vazio
Cavalo de madeira sem galope.
Há alguém aí capaz de reverter o encanto?
Ou serei eu sempre a perambular
Pelas sombras de mim mesmo
Até encontrar a imagem verdadeira
Da minha filha de Zeus?
Ahhhhhhhhhhh se Homero me cantasse
Ganharia roupas gregas
Capazes de me cobrirem a honra
E quem sabe até louros de herói
Eternizado numa escultura clássica!
Mas Homero já não fala
E a minha dança continua assim
Nua, solitária e embriagada
Pelo líquido da tua ausência
Atravessando meu corpo em forma
De poção
E corroendo minhas veias
Em nome dessa tua mágica.



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Segunda-feira, Janeiro 21, 2008

Intervalos...



Encantado


Lá em cima,
Nas nuvens,
Numa casa de sonhos
De mares e montanhas,
Luares e canções...
Calor da lareira,
Calor da fogueira
Das nossas paixões.
A gente queimando,
A gente sorrindo
O doce sabor do reencontro
Desse nosso amor de nuvens
Que é puro e simples
Encanto.



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Quinta-feira, Janeiro 17, 2008

Intervalos...






Meu coração hoje bate num compasso diferente.
Não está acelerado como quando o desejo rasga meus sentidos,
Não está lento e calmo como quando olho da minha janela
O pássaro livre buscando o néctar da sua rosa amarela...
Não está ritmado no forte chamado das Bachiannas
Nem atrevido rebola o samba soprado
Pelo Paulinho da Viola.
Hoje meu coração está assim:
Sem nenhuma pretensão de ser dança,
Nem promessa,
Nem sombra
E nem lembrança...
Meu coração hoje
Resolveu simplesmente aceitar o fato
De que pode exercer o seu direito constituído
De ser apenas
Coração.



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Quarta-feira, Janeiro 16, 2008

Intervalos...



Lembrança do Paladar

Eu diante da cortina branca
Ela diante do meu descortinado enredo
Ela desfazendo as malas das verdades
Eu despindo-me das fantasias das minhas mentiras
Mão quentes,
Gemidos melodiosos
E gosto de calda de Maracujá.



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Quinta-feira, Dezembro 20, 2007

Intervalos...



Alma em êxtase

Hoje,
Eu não quero o desejo do corpo.
Hoje não!
Agora não!

Eu não quero o gozo de líquidos,
Os gemidos híbridos,
Os sussurros loucos...
Eu não quero a promessa gritada,
A música alta,
A palavra falada...


Hoje
Eu quero só isso,
O vento balançando as cortinas
E o gosto de sal dos teus lábios.

Quando o teu corpo deixar o meu,
Não quero um sorriso maroto,
Maliciosas rimas, cheiro de gozo...

Quando o teu corpo deixar o meu,
Eu só quero continuar sentindo
O peso da tua alma na minha
E a certeza de que somos nossos,
Hoje!



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Quinta-feira, Dezembro 13, 2007

Intervalos...



Na cabana

Existe sim,
Um lugar nos sonhos de
Transes risonhos e
Eterno acalanto.

Abriga-nos sim,
Momentos encantados de um
Olhar eternizado na grandeza do seu pranto.

Magia sim,
Universos diferentes de
Inexistentes medos,
Tranquilos sonos e
Outonos permanentes.

Mergulho sim,
Imerso na melodia,
Náufrago da fantasia,
Homem que espera submerso
A ilha que abriga o seu verso.

Conheço sim,
A cor da tua alma,os
Ritos da tua calma,
Loucuras não reveladas,
Inebriantes palavras,
Na imensidão do nosso tempo
Hoje o eterno momento de
Apenas amar sem pedir nada.



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Segunda-feira, Dezembro 10, 2007

Intervalos...



O que diria Baco?

Nas orgias solitárias das minhas noites
Apenas uma deusa reina absoluta!
Ela tem dois olhos de uma fome intensa
E uma boca imensa
Que me morde a nuca.
No caminhar dessa minha louca,
Minha composição se faz nesse seu
Passo a passo.
E as teias vão saindo,
Uma a uma
Me atando livre nesse imenso laço.
Ela não me prende! Ela me tem!
Ela não me completa! Ela me sabe!
Ela traz nas mãos o segredo do meu sonho
E quando abre os abraços, acolhe a minha alma.
Do meio das pernas dessa minha dona,
Sai um cheiro forte de desejo pleno
Que me deixa tonto,
Embriagado e louco.
Faz de mim o animal mais selvagem
E contempla meus instintos de sede insaciável.
Se isso é insanidade...
Ahhhhhhhhh! Permitam que eu siga louco
Deixa eu escrever minha história
Com a tinta densa
Que sai dos poros dessa minha deusa.
E no arfar dos peitos que se enroscam trêmulos
Na trama das pernas e das línguas afoitas
Eu me vejo na loucura do sangue dela
Que enrijece meus músculos numa busca eterna.
Mas quando os olhos dela tomam os meus por completo
E a minha vida líquida se esgota no cansaço de seus suores
É o meu menino puro que ela abriga em seus braços
E dos olhos mágicos da minha poeta
Sai um convite que ele aceita em rodopios delirantes
E brincamos de roda numa ciranda infinda
Que só se acalma
Quando tudo em mim dança na musica dela.



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Sábado, Dezembro 08, 2007

Intervalos...



Carta a um amor de ontem

Não.
Não sou a extrema expressão da sensibilidade.
E não:
Não quero mexer no meu lixo existencial.
Nada disso!
Só estou sozinho de novo
Nesse oculto e intenso mundo
das minhas metáforas.
Só estou com esse gosto na boca
Esse gosto de coisa alguma
Esse gosto de silêncio opressivo
Esse gosto de solidão incondicional
Não é o texto...
Não é a mensagem...
Não é a intenção...
Não é a forma...
Nada!
Nada além do meu contexto
universal em mim mesmo.
Somente as imagens que crio são fiéis.
Isso eu já sabia!
É! Eu sabia!
Sabia que só dentro de mim está
O doce que eu quero provar,
As músicas que eu quero ouvir,
Os poemas que eu quero ler,
As melodias que eu quero dançar...
Mas quando a gente põe a alma no varal
Espera,
No mínimo,
Um silêncio interrogativo...
Não tenho ânimo para debater.
Não tenho desejo de discutir.
Já até cansei de dialogar!
Alguém mexeu no meu texto
Mudou o enredo
E eu?
Eu me sinto mu-ti-la-do.
Mas ainda tem os beijos...
Os beijos?
Todos os beijos perderam a saliva.
Podem assumir diversos e criativos sabores...
Mas de hoje em diante eles serão secos...
Eles não terão saliva.
Beijos secos
enquanto eu aqui me engasgo
com toda a saliva que um dia produzi
por ti.



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Quarta-feira, Dezembro 05, 2007

Intervalos... ou Interferências?


Esse conto foi escrito a quatro mãos e um único amor e sonho! Ela e eu ou Eu e ela!


Vale dos sonhos ou Um conto de dois cantos

Era uma noite fria de outono, ela preparava um chá e, através da janlea da cozinha, buscava na luz prateada da noite vê-lo chegando.
Segurou a caneca de porcelana com as duas mãos e, ao aproximá-la de seus lábios entreabertos, teve a sensação agradável do calor que lhe aquecia.
Era tarde e seu coração doía de saudade.
Aconchegou-se ao lado da janela da sala na poltrona de couro, sua preferida. Cobriu-se com uma manta leve e, enquanto sorvia o liquido doce e
quente e o cheiro de pêssego invadia as suas narinas, olhou o céu salpicado de estrelas e a lua crescente que lhe parecia um grande sorriso.
Os sons do silêncio da noite a invadiam e recordou o momento em que descobriram aquele pequeno paraíso encrustado no vale entre as densas montanhas.
Caminhavam a procura de um lugar que fosse o seu refúgio, Um lugar encantado como só o amor que os tomara sabia ser. Um lugar onde poderiam morar
juntos, acomodar os sonhos em comum e abrigar a poesia que se derramava no encontro dos olhos.
Quando os olhos fitaram aquele lugar, falaram ao mesmo tempo.
Ela exclanou: Que chalé mais lindo!
Ele interrgou: Esta cabana é uma miragem?
Os olhos fugiram da paisagem e encontraram o brilho dos olhos do outro e sorriam e jamais entrariam num acordo se era um chalé ou uma cabana,
mas souberam, no ato, que aquele era o lugar perfeito para eles.
Num estilo rústico, porém aconchegante, toda avarandada e completamente ensolarada, durante todo o dia. Parecia ter em segredo um acordo com
a luz dos astros pois, se durante o dia, o sol, a cada horário, escolhia um lugar para brindar com seus raios; à noite a lua prateava o seu interior de uma maneira ímpar.
Sim era perfeito! Rodeado pelas verdes montanhas, contornado por um lindo jardim, rico em cores e aromas que se misturavam numa composição única e onde rosas, azaléias,
jasmins e hortências pareciam brincar, desenhando aquele que era para eles, um vale de sonhos.
Aquele seria para sempre o refúgio tão esperado e onde, cúmplices, partilhariam momentos iluminados e eternos de sorrisos e gozos, suores e poesia.
Ela sorria, a felicidade aquecia a sua alma como o chá lhe aquecia agora o corpo. Olhou o relógio que insistente corria seus loucos ponteiros avisando que
era tarde e a saudade ainda doía em seu corpo tão bem acomodado na imensa poltrona de couro branco.
Apoiou a caneca vazia na mesa sentindo o sono que ameaçava rouba-la de sua contemplação silenciosa e ajeitou-se deixando o corpo mais encolhido em seu próprio calor.
Antes que o sono a tomasse por completo, sua lembrança revisitou aquela manhã:
Despertou e caminhando para a varanda da sala o viu. Olhava o vale tão verde, coberto pelo orvalho da madrugada e trazia nas mãos uma xícara de café quente que espalhava seu cheiro forte pelo ar. Correu os olhos por seu corpo e se o que eles enxergavam era um lindo homem de bata e calças brancas, pés descalços e música nos olhos. A sua alma via muito mais do que a forma e pode ver a alma daquele ser livre que voava junto com seus pensamentos.
Sorriu ao reviver aquelas lembranças e adormeceu.
Algum tempo depois ele chegou sorrindo. Feliz pensou ao correr os olhos pela paisagem tão deles: Este é meu lugar no mundo!
Entrou de mansinho e a chamou baixinho, mas, mesmo só tendo como resposta foi o silêncio, sabia que ela estaria alí. Ela sempre estava!
Essa era a sua maior certeza e o lugar seguro de seus mais lindos sentimentos.
Assim que seus pés ganharam o chão da sala, sua alma ganhou o chão da visão mais doce: ela dormia aconchegada em seu sono tranquilo e tinha
no semblante um sorriso suave enfeitando-lhe ainda mais a face. Ficou parado, contemplando sua mulher banhada pela luz da lua. Sim! Era sua
mulher e quando pensava no pronome, que longe de ter posse, tinha paixão, seu coração se enchia ainda mais de amor.
Lentamente caminhou e, ao se aproximar dela, tocou seu rosto com a delicadeza dos amantes e a pegou no colo.
Ela, ao reconhecer seu toque único, abriu os olhos devagar e lhe sorriu, o riso mais lindo e doce que ele já vira e ele leu em seus olhos
o que o coração dela gritava: Eu te amo!
Assim em seus braços a levou ao quarto e, pelo caminho, sua boca tocava a dela como se bebesse a sua essência. Colocou-a sobre a cama e ela,
olhando para ele que se despia, fechou os olhos naquele momento que antecedia o amor e falou baixinho:
- Se isso é um sonho bom, que eu jamais acorde!



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Terça-feira, Dezembro 04, 2007

Intervalos...



O gosto da noite

Ela sentia-se sem sono e percebeu que continuar naquela cama vazia não mudaria esse fato, então calçou os chinelos e saiu... Abriu a porta dos fundos e olhou o grande quintal de árvores onde passara a sua infância e então fechou os olhos e sentiu o cheiro da terra molhada pelo sereno da madrugada e em meio aos tantos aromas daquele quintal de fundos, sentiu um cheiro mais forte do que qualquer planta daquele lugar e abriu os olhos a procura do que sabia muito bem ser.

Num banco velho de madeira, ele olhava o céu como se ainda não tivesse se dado conta de sua presença e ela podia ver o vulto produzido pelo seu corpo naquele quintal silencioso e iluminado apenas pela luz da lua.

Ficou observando aquela imagem por algum tempo e aproximou-se devagar. Quando estava bem mais perto que já podia ver o rosto dele inclinado para cima como se numa busca de alguma estrela perdida parou por muito tempo e tentou imaginar o que ele fazia ali inerte e sozinho como ela.

- Senta aqui – ele falou quase num sussurro.
Ela caminhou até o velho banco e sentou-se ao seu lado, mas ele não a olhou por nenhum momento mantendo sempre seus olhos no alto.
- Estava aqui olhando esse céu misteriosamente lindo e pensando quantas questões temos e que jamais conseguiremos responder....
Ela nada disse, olhou também para o céu como se buscasse alguma imagem absorvida por ele.
- É estranho como voamos, voamos, mas sempre queremos estar no ninho! A gente quer o desconhecido, mas a sensação de conforto que nos traz o que já conhecíamos é absolutamente atraente, não é?
Depois de muito tempo em silêncio, ela disse:
- Acho que não sei muito bem sobre o que fala... Não voei para longe daqui em nenhum momento de minha vida... Nunca tinha pensado nisso, mas acho que nunca sai daqui.
- Eu também não... É isso mesmo que estou dizendo. Eu creio que nós nunca saímos desse lugar... por mais que tenhamos existido em outras dimensões... sinto que esse lugar nos pertence como nós a ele.

Talvez por ter percebido, por reflexo, que ele abaixara os olhos até ela, pela primeira vez desde que chegara, ou, simplesmente movida pela emoção do momento, sentiu o calor do corpo tão próximo ao dela e desejou profundamente ser ainda uma menina e estar simplesmente ali com um velho amigo de infância pensando numa nova brincadeira para executarem na manhã seguinte.
- Você me parece tão minha! Onde foi que nos tivemos assim?
- Talvez aqui... talvez numa noite estrelada de uma praia deserta... talvez num parque encantado... eu não sei, não sei... meu.... amor... meu...
Repetiu o seu nome por diversas vezes e a cada vez que ele ouvia o seu nome traduzido naquela voz doce sentia- se mais e mais próximo de quem o chamava.

Olharam-se sem mais nenhuma palavra e aproximaram seus lábios quase num ritual sagrado e se beijaram com fome e se acariciaram sem pressa e muito pouco tempo depois estavam caídos no chão de terra e faziam amor de maneira silenciosa e maravilhosamente especial.

Ela fechava os olhos e sentia o seu corpo incendiado de calor onde era tocado pela língua quente dele ao mesmo tempo em que sentia o frio da terra molhada e o cheiro do mato.

Agora, sentada sobre ele, ouvia as árvores que balançavam ao vento forte e os gemidos quase mudos que saiam do peito daquele que conhecia melhor do que ninguém seus caminhos mais prazerosos.

Nem ele e nem ela saberiam dizer por quantas vezes apertaram-se com mais força, arranhando-se e mordendo-se de prazer no quintal de terra molhada.

Nem ela e nem ele saberiam contar quantos gritos abafaram na boca do outro na tentativa de manter aquele momento totalmente secreto e íntimo.

Ela ainda viu o seu vulto deitado no quintal escuro quando abriu a porta da cozinha e entrou devagar na casa desconhecida.

Ele acompanhou os passos dela até que sumiu na penumbra da noite e então fechou os olhos e passou a mão pelo próprio sexo sentindo a umidade de líquidos e sonhos que ela havia deixado sobre ele.





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Quarta-feira, Novembro 28, 2007

Intervalos...



Se

Se nas asas do tempo
Eu perdi a hora
É no trilho dos sonhos
Que eu me encontro agora.

Se a onda quebrou
Lá na beira mar
Eu mergulho nas nuvens
Desse teu denso olhar.

Se no conceito moral
Sou o conhecido louco
É a sua língua que abafa
Esse meu grito rouco.

Se os jasmins nas tuas mãos
Abrem nosso outono de malícias
Na primavera do teu poema
Semeio todas as nossas delícias.




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Intervalos...



Tua música

No encontro das águas
Os olhos
Na junção dos lábios
Os sonhos
A vida mudando de lugar
A cada lugar que a pele toca
A sinfonia sendo re-composta
Passo a passo nessas tuas notas.



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Intervalos...



Nossa rima

No outono dos teus olhos lua
Colho as folhas do amor que nasce
Cravo os dentes nessa fruta pura
Sentindo o gosto da onda que se lança
Poesia adentro, olhares afloram
Só pra banhar meu sonho
Nessa água morna
Do teu corpo mar



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Quarta-feira, Novembro 21, 2007

Interferências de...



Carlinha

Palavras do Poeta

De onde vem as palavras do poeta?
Palavras inspiradas e inspiradoras
Vem das marcas que a vida lhe infringiu n’alma?
Das lembranças da infância?
Da dor mais intima?
Do desejo que queima a carne?
Do gozo pleno?
Do coração partido, pela dor da despedida?
Pela sede do amor?
Pela boca entreaberta?
A boca que almadiçoa, que perdoa, que diz te amo?
O poeta quando gera e pari sua obra
Sente a emoção solitária
Mas quando alguém toma posse de suas palavras
A alma do poeta invade e é invadida
Há a união perfeita
O gozo do ato, a dor do parto.
Já não se sabe o que inspirou, quem foi a musa
Sabe-se apenas
Que o poeta vive.



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Interferências de...



Rumi

Dançar não é flutuar sem esforço como um grão de areia soprado pelo vento.
Dançar é elevar-se acima do mundo, despedaçar o coração e desistir da própria alma.
Dançar é partir-se em mil pedaços e abandonar totalmente as paixões mundanas.
Verdadeiros homens dançam e rodopiam num campo de batalha; dançam em seu próprio sangue.
Quando renunciam a si mesmo, eles batem palmas;
Quando deixam para trás as imperfeições do ser, eles dançam.
Seus menestréis tocam musica interior; e oceanos de paixão se rompem em espuma na crista das ondas.



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Senti necessidade de postar aqui dois textos e nenhum dos dois é de minha autoria.
Por que vou posta-los então? Não tinha escrito que só postaria textos meus aqui?

Eu nunca me prendo
Nem em falas
Nem em gestos
Nem em nada
Sou livre para ir e vir dentro de mim mesmo
E se nessa caminhada eu encontro o contrário do que eu pensava
Que bom! Eu me renovei!
E eu me renovei agora!

O primeiro texto (de baixo pra cima)encontrei por acaso e quando me deparei com a verdade de sua fala, me calei e ouvi a música que o silêncio assoprava e dancei com a alma e não é qualquer texto que me dança assim! É um texto de um poeta chamado Rumi que eu ainda não sei direito quem é, mas vou saber...

O segundo texto (de baixo pra cima também, claro!) recebi como um presente de alguém que me tem sido um dos maiores presentes da minha vida.
Dessa vez eu não dancei, eu me mantive no momento que antecede a dança, flutuei no não movimento, no estar-por-vir do movimento... E o que me manteve assim foi a parte de mim que me foi entregue através das palavras e que eu jamais me dei conta de que me habitasse. Essa é a força da Carlinha!

Então, quando eu sentir vontade, vou publicar textos de outrem e vou chamar esses momentos de... Interferências...



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Quarta-feira, Outubro 17, 2007

Intervalos...



A flor do mamoeiro


Quando criança, certa pessoa, um desses feixes de luz que aparecem em nossa vida como por encanto, disse-me:
- Quando olho pra ti assim penso numa flor de que gosto muito! A flor do mamoeiro. Ela é uma florzinha simples, pequenina demais, poucas pétalas, poucas cores – apenas duas! – tão frágil que facilmente se desprende do ramo e, ao chão, ao redor do mamoeiro, você encontra muitas dessas pequeninas caídas. Mas se a pegares em tuas mãos - as caídas mesmo - se a tiveres nas mãos por uns instantes, sabes o que vês? Num primeiro olhar já notará a simetria perfeita. Ela tem cinco ou seis pétalas todas iguais e viradinhas assim para um lado, como um cata-vento colorido! Mas se aproximares a flor de teu olfato, meu amor, sentirás toda a força contida nessa pequenina prova de vida. Ela emana com toda a fidelidade existente todo o odor do fruto que se encaminha. É assim mesmo que és! Pequenino e frágil, singelo e simples, mas no brilho destes teus olhinhos, na força deste teu riso ou no doce toque destas tuas mãozinhas, já posso sentir o perfume do grande homem que será!
Naquela época apenas senti o acalanto daqueles olhos que me iluminavam e a brandura daquela voz que eu amava e que me embalava.
Mas carreguei comigo, vida afora, aquela sua fala e segurei com garra aquele ramo que me sustentava no propósito único de me transformar naquele fruto doce e perfumado.
Mas um dia um vento forte soprou de repente e me desprendeu do ramo e eu, esquecendo-me da essência do que disse, me senti humilhado por constatar que não me transformaria naquele fruto que previra e me deixei ser pisoteado e me acreditei morto e fadado a ser simplesmente isso: uma flor morta na solidão do seu chão!
Noutras vezes, embalado por falsas ilusões, acreditei ser capaz de galgar aquele tronco e me prender novamente no ramo e assim cumprir a única missão que me parecia nobre.
Ah! Por que demorou tanto para que suas palavras me tomassem de verdade?
Por que não ouvi o que o teu coração dizia e teria desperdiçado muito menos tempo e suores tentando atingir o inatingível?
Mas hoje, quando aqui desse meu solo, a sombra das minhas folhas, olho pra cima e vejo as flores bem dispostas e seguras em seus ramos, ouço novamente a sua voz que chega junto com o vento que derruba outras flores e então meus sentidos se abrem e o cheiro da vida entope minhas narinas e eu brindo a verdade contida no vento que me desprendeu e me preparo com honra e orgulho, num ritual perpétuo e infindo, para fecundar esse meu solo.
Hoje, só hoje, entendo o que dizia, meu anjo negro! E também por você e por suas palavras, não penso mais no fruto que não me tornei quando caí do meu ramo, ao contrário, olho para ele – para o meu ramo – e vejo que as flores lá seguras são as flores que compõem a minha história; saboreio a lembrança dos frutos que me visitaram; sinto saudades das flores que caíram antes de mim em seus propósitos de missão cumprida e contemplo a terra em que fecundo para que esse grande mamoeiro não pereça e que continue a dar flores e frutos por toda a sua imensa eternidade.
Suas palavras chegaram finalmente a minha alma minha querida lembrança!
Que tolo fui por acreditar que dizias que eu seria apenas um fruto!
Obrigado por ter me avisado tão cedo que a mais alta das folhas e o mais profundo grão dessa terra era apenas parte desse mamoeiro que cresce!



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Terça-feira, Outubro 09, 2007

Intervalos...



Amor de nuvens

Há dias a frieza do silêncio dele a maltratava.
Conhecia aquele homem como poucos seres foram capazes de conhecer outros da mesma espécie.
Conhecia seus sorrisos, conhecia suas lágrimas, seus sonhos...
Apenas no tom de seu desejo de bom dia poderia dizer que pesadelos habitaram-no durante a madrugada.
E há dias o silêncio gritante dele dizia tanto que nenhuma palavra conhecida jamais abarcaria toda aquela tradução de sentimentos.
Mas aquele dialeto único que um dia se denominou sintonia hoje cortava a sua carne e, por mais que desviasse os olhos ainda embebidos naquela paixão, ela sabia que aquele grito ecoaria e, no sobressalto daquela espera torturante, agarrava-se à esperança de que fosse apenas mais uma das instantâneas fugas daquele seu homem-menino-pássaro.

O feriado prolongado e a proposta daquela viagem até as montanhas a encheram de entusiasmo, pois viu nos lábios dele um sorriso imenso enquanto planejavam o passeio.
Passou uma semana conferindo e re-conferindo cada detalhe. Queria que tudo fosse perfeito como até então fora perfeita a proposta daquela vida a dois.
Escolheu a dedo o chalé de um requinte rústico que era exatamente a forma como ela via o seu homem: uma pedra lapidada que jamais perdera a força rústica das suas origens de terra.
O pequeno e quente chalé habitava quase solitário num lindo vale encravado entre as montanhas preferidas dele e da janela do quarto era possível avista-las em toda a exuberância e imponência de seu verde silêncio de neblinas.
Cuidou para que ao chegarem a lareira já estivesse aquecida e os jasmins e as rosas amarelas compusessem a única decoração que cabia naquele momento.
Mochilas nas costas e no peito a certeza de que aquele seria um grande momento, mas jamais pressentira o tamanho real que ele teria.
Abraçada ao seu corpo, sentia o vento batendo em seu capacete e se deliciava com o toque de suas mãos sobre as luvas de couro quando a estrada se apresentava mais calma.
Já anoitecia quando chegaram diante do inebriante lugar e, mais uma vez, o coração dela se transbordou numa certeza terna de que acertara a mão na dosagem daquela magia, pois os olhos dele brilharam tanto quanto os de um menino diante de um lindo e colorido carrossel iluminado.
Curtiram a chegada, desarrumaram as mochilas, conversaram animados enquanto degustavam um vinho seco e encorpado a beira da lareira que estalava o seu calor de cheiro de madeira.
Ele estava falante naquela noite. Contava coisas de seu passado misturando momentos densos com risos e lembranças divertidas e ela apenas o olhava com seus olhos de encantamento, mas, por trás daquele seu sorriso cúmplice, uma densa nuvem ameaçava a sua calma e ela se angustiava por não conseguir decifra-la. Sabia apenas que ela estava lá. Ela não cobria o calor do sol daquele momento, mas estava lá... E nuvens se movimentam o tempo todo mesmo quando não percebemos e isso ela sabia.
Combinaram de tomar um banho quente e sair para comerem algo num cumprimento aquela cidade de luzes.
Enquanto ela tirou suas roupas e se preparou para o banho, ele tirou de sua mochila o pequeno aparelho de som e fez com que a música tomasse o silêncio com sua sonoridade e cuidou de colocar mais lenha na lareira.
Depois de um relaxante e revigorante banho ela voltou ao quarto e viu a janela da pequena sacada entreaberta e, esticando os olhos, viu seu homem sem camisa sob aquele frio cortante, parecendo querer receber na pele o clima que tanto conhecia; ouviu a música que soava pelo quarto e pousando os olhos sobre a cama, onde a bata que ele usava sob os agasalhos repousava mergulhada em sua inércia, sentiu o vento frio que entrava pela janela e puxou a bata com a ponta dos dedos e depois de sentir nela o cheiro que tão bem conhecia, vestiu-a e, encorajada, saiu para receber o vento frio que percorria a noite estrelada e silenciosa daquele verde vale.
Ele olhou para trás sorrindo, comentou alguma coisa sobre o clima e abriu os braços para ela que tentava parar de tremer de frio.
Ela se aninhou em seus braços desnudos e imediatamente o calor dele a aqueceu da maneira mais plena.
A música que tocava no pequeno aparelho no quarto era apenas pano de fundo naquele momento em que a verdadeira melodia era composta pelo silêncio da noite e o ardor daquele sentimento intenso entre eles.
Ficaram assim por um longo tempo, num silêncio cúmplice e de mil palavras na contemplação daquele pequeno paraíso que só a eles pertencia nesse momento.
Mas, além do frio que já parecia menos suportável, uma fina e gélida garoa os obrigou a voltar ao quarto e fechar a janela grande de madeira entalhada.
Sem os braços dele ao redor de seu corpo o frio lhe pareceu insuportável e ela correu para junto da lareira e, ajoelhando-se no chão sobre o tapete vermelho, esfregava as mãos mais próximas do calor daquele fogo fascinante em suas cores.
- O fogo sempre me fascinou, sabia?
Ela o olhou e viu que ele estava sentado no tapete e encostado no pequeno sofá de couro disposto diante da lareira.
- É lindo, não é?
Ele apenas sorriu, esticou a mão lhe entregando a taça que enchera de vinho, encheu a segunda taça e depois de sorver um generoso gole, disse:
- Lindo e misterioso! Forte e imponente! Ele me dá medo e tudo que me dá medo também me fascina!
Ela olhava para ele através da taça de vinho que sorvia e novamente aquela nuvem brincava de se mostrar presente em seus pensamentos e ela se esforçava em afasta-la.
Olhou-o com uma malícia delicada nos olhos e disse:
- Eu te dou medo?
Ele virou o rosto como se a quisesse tomar de outro ângulo e depois de olha-la por algum tempo disse:
- E me fascina! Nunca te disse isso? Sou completamente fascinado por você e seus mistérios...
Enquanto dizia essas palavras calma e pausadamente, segurou seus dois pés e a puxou para junto de seu corpo. Mas antes do gesto os olhos já anunciaram o convite e o corpo dela já respondia inteiro ao chamado que os dois tão bem conheciam.
Bem junto do corpo dele, com as pernas enlaçadas em seus quadris, ela olhou os olhos dele e sentiu o hálito quente cada vez mais próximo do seu e manteve os olhos abertos enquanto sentia a língua que percorria seus lábios como se pedisse licença para invadir a sua boca e as mãos que percorriam as suas coxas macias e a puxavam cada vez mais para perto dele.
Naquela noite, quando olhou o fogo iluminando o rosto contraído dele sobre ela e sentiu-se penetrada com a costumeira intensidade, ela pode ver mais do que apenas um homem perdidamente apaixonado, seus prazeres e seus desejos; quando sentiu o seu próprio êxtase entornando no mesmo momento que o dele a invadia, ela viu nos olhos de fogo dele um amor maior que o amor e a única palavra que veio a sua cabeça naquele momento foi: eternidade.
Suados e ainda ofegantes, ela aninhada em seu peito, sentia as mãos nos seus cabelos desalinhados e ouviu:
- Ainda quer sair pra comer?
- Não! – respondeu quase num sussurro.
Ele sorriu e beijou a sua testa, ajeitando-se ao lado dela sobre o tapete já torto de tanto malabarismo e, depois de um beijo doce, adotou um ar interrogativo ao dizer:
- Então me conta os segredos daquela sua bolsa dentro da mochila que eu sei que tem algum mistério rondando por ali.
- Mistério? – sorriu – Nada além de uns biscoitinhos, umas poucas barrinhas de chocolate e um certo pozinho mágico.
Ele fechou os olhos e num gemido longo de satisfação disse:
- Hummmmmmmmmmmmm! Posso aquecer a água então?
- Deve! – ela disse sorrindo.
Conversaram, ainda sentados no tapete vermelho e bem perto da lareira, enquanto sorviam o capuccino e degustavam os biscoitos que ela retirara da mochila instantes antes.
Mais tarde, quando se sentiram vencidos pelo sono, deitaram na grande e macia cama de brancos lençóis e com o desejo de boa noite vieram os beijos e com os beijos as carícias e com as carícias mais momentos de um desejo quente e sublime e só então se entregaram ao sono daquela primeira noite no chalé aquecido.
No dia seguinte, por todo o dia, visitaram lugares, vislumbraram paisagens que despertavam um forte sentimento de infância naquele homem alimentado por saudade. E ela se sentia muito especial em partilhar com ele aqueles momentos ímpares de emoções afloradas.
Se o dia fora regado a passeios e até mesmo um sol morno os brindara, à noite, mais uma vez ao fogo da lareira, foi a paixão que se derramou sobre eles e se possuíram com toda a sede de que eram capazes e não só a carne e os corpos se fundiam durante aquele ritual, mas as almas se juntavam plenas na certeza de que para sempre guardariam os cheiros, os sons e os aromas daqueles momentos.
No terceiro e último dia a manhã já se anunciou diferente. Uma chuva fina e intensa insistia em molhar todo o vale lá fora e, quando ela acordou, viu que ele estava em pé, diante da janela fechada pelo vidro embaçado e olhava na direção de sua montanha, porém, esticando mais a vista, o que ela percebia é que a neblina não permitia que enxergassem nada além dos pingos de chuva no vidro.
Levantou devagar e, ainda ajoelhada na cama, tomou suas costas num abraço quente e beijou o seu pescoço junto com um doce desejo de bom dia.
Ele apoiou a sua mão sobre a dela e, embora o gesto se mostrasse carinhoso, demorou mais do que o normal para se voltar a ela e olhar os seus olhos, mas quando ele realizou esse simples gesto, ela teve a certeza plena e absoluta de que a chuva lá fora não trouxera apenas neblina, mas que o vento frio trazido por aquela chuva, também fizerem com que as nuvens de dentro dela se movimentavam de maneira visível e nada mais estava no lugar onde deixara na noite anterior.
Olhou-a por um tempo como se quisesse dizer algo, mas a visão dela se embaçara na densidade das nuvens e ela não conseguia enxergar o que a boca jamais diria.
- Eu já volto! – ele disse apenas e já caminhou até seu casaco.
- Aonde você vai? – perguntou já sem forças diante da verdade que começava a entupir o quarto com a música inquieta de sua agonia.
Ele a olhou novamente com os olhos cheios de coisas não ditas e nada respondeu, apenas alcançou a maçaneta da porta.
Seria bobagem evitar! Seria como querer atrasar os relógios todos do mundo e mesmo assim saber que a lua e o sol determinariam a exatidão daquela hora.
- Não foge! – pediu sem forças – Não foge porque não vai adiantar!
Ele permanecia de costas, mas soltou a maçaneta da porta e se manteve inerte.
- Por quanto tempo vai fugir? Por quantas vezes eu vou te ver fugir e voltar com a mesma sombra nos olhos? – sentiu o deslizar da única lágrima que queimava a sua face – Não precisa mais fugir eu acabei de ler a mensagem final nos seus olhos...
Mesmo sem olhar o seu rosto ela sabia das lágrimas quentes e doridas que deslizavam pela sua face agora mais gelada do que nunca.
- Não precisa mais fugir! Você pode sair sem carregar a culpa da fuga... Eu sei! Eu via! Eu sentia cada gota de saliva do seu silêncio e se estamos aqui agora, depois de tudo que vivemos juntos, é porque eu sabia, de alguma maneira eu sabia, que aqui mesmo era o fim da nossa estrada.
Nesse momento um soluço forte ecoou e ela demorou alguns segundos até saber se aquele gemido de dor saíra da sua ou da garganta dele.
- Olha pra mim! Deixa meus olhos se despedirem dos seus! Foi neles que tudo começou e é neles que se encontra o nosso fim.
Ele continuava de costas e ela já não mais controlava o choro que vertia desesperado.
- Olha pra mim! Não vai ver uma mulher derrotada por ter perdido o amor da sua vida... Eu prometo que não! O que você vai ver aqui é uma mulher que sempre soube que um dia você voaria de volta às suas montanhas e, que nesse momento, a gaiola, mesmo sendo de ouro, só te desbotaria e jamais essa mulher aqui pensou em roubar o encanto das cores de tuas asas... Olha pra mim e deixa eu te olhar pela última vez e fixar na minha mente a imagem dos olhos de um homem que me amou como nunca sonhei ser amada na vida, mas um homem que embora invisíveis, possui asas imensas e talhadas ao vôo. Olha pra mim, meu encanto... Deixa os meus olhos te desejarem um vôo lindo e te mostrarem que aqui, nos meus olhos, na minha boca, no meu corpo, na minha alma... Sempre haverá um ninho para quando quiser repousar o seu cansaço.
Devagar ele se virou e seus olhos estavam encharcados, assim como seu rosto todo e ainda tentou dizer alguma coisa, mas ela levou o dedo aos próprios lábios, sorriu, fechou os olhos e se manteve completamente inerte enquanto ele pegou sua mochila já arrumada e saiu do quarto.
Ela ouviu o ronco do motor da moto se perdendo no silêncio do vale e ainda demorou um tempo para que conseguisse abrir os olhos inundados e, quando olhou o quarto mais vazio que já vira em sua vida, trançou os braços por sua barriga como se pudesse acalentar a dor que se instalava em suas mais profundas entranhas.
Sentou-se à cama tentando recobrar o equilíbrio das pernas trêmulas e olhou a lareira que com um fogo quase apagado parecia também anunciar o frio que cortava sua pele.
Ficou sentada assim por muito tempo sem forças para se levantar e sem coragem para chorar, mas a chuva lá fora aumentava muito e chamou a sua atenção para o vidro onde a água escorria impiedosa, então se levantou e caminhou, quase cambaleante, até a janela de vidro esfumaçado e passou sua mão freneticamente tentando em vão conseguir alguma visão além da inquietação do vapor, sem se dar conta de que a nitidez daquela visão não dependia apenas da clareza do vidro.
Tentou enxergar a montanha, mas era como se ela não estivesse lá, tamanha a densidade das nuvens que a cobriam. Em vez do verde das montanhas frias, que tantas vezes ouvira dele sobre sua magia, o que via eram cenas passadas não só naquele mesmo quarto cravado no meio da neblina de sua alma, mas em todo aquele tempo em que a poesia deles se misturou para compor uma linda melodia que para sempre viveria nos dois.
Depois de muito tempo revivendo cada momento gravado em sua memória como alguma coisa que há muito tempo havia terminado, arrumou suas coisas, chamou um táxi através do seu telefone e olhou tudo ao redor como se quisesse perpetuar cada ranhura daquelas paredes que abrigaram seus mais doces suspiros e também a sua mais profunda dor.
Olhou as fotos que tinham mandado imprimir no dia anterior enquanto tomavam chocolate quente num charmoso café do centro de Campos e sorriu ao ver o seu sorriso farto e ao se dar conta, somente naquele momento, que atrás dela, o homem que a enlaçava o pescoço e esperava o flash da foto, sorria apenas com os lábios, mas tinha nos olhos o mais profundo e contido grito de desespero.
Não era aquela imagem que queria guardar do que vivera e, por isso, sem hesitar, jogou as fotos na lareira que ainda ardia as suas brasas brandas.
Na janela do ônibus o mesmo vidro embaçado de antes e quando percebeu que somente aquela paisagem a acompanharia por aquela viagem, fechou a cortina azul, inclinou o seu banco, virou-se de lado, apoiando a cabeça nas mãos e pensou:
Eu só preciso descansar! Eu preciso descansar para poder estar pronta para ser feliz de novo! Só isso!
No momento em que fechou os olhos, viu a imagem de seu homem voando por sobre suas verdes montanhas e sorriu intimamente aquela visão. Absorvida pela magia daquele vôo, nem ouviu a insistente buzina que nervosa e aflita parecia querer dizer algo e seu pensamento brincava buscando para ela e toda a sua dor um lugar confortável que jamais existiu fora de si mesma:
Agora eu vou dormir e sonhar... Tudo o que eu quero agora é um sonho bom!



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Sábado, Outubro 06, 2007

A Marca de Caim


[Capítulo II]

Os grãos de feijão da minha avó...

Após alguns poucos anos em São Paulo, me deparando com toda a miséria que pensava ter deixado para trás em cada esquina de cada rua que atravessei nesse tempo, já não era mais o iluminado menino de dezessete anos que deixara Campos do Jordão atrás de um lugar em que pudesse depositar os jardins de minha esperança. Mas ainda tinha no olhar aquele brilho de quem se sabe incapaz de deixar-se ser consumido pelo medo e entregue a mediocridade da calmaria do óbvio.
Por vários momentos a única reposta que ecoava em meus ouvidos era: “Volte para o seu lar...” Mas se eu já me sabia sem lar quando deixei Campos, aquela São Paulo que me consumia também era a cidade que me alimentava e eu estava cada vez mais viciado naquela busca eterna que jamais imaginei ter saciado.
Enquanto devorava livros e mais livros com uma fome adolescente, trabalhava muito para me manter em meu caminho e se as coisas não estavam sendo fáceis, pelo menos eram possíveis e isso me revelava a certeza de que eu ainda conseguiria alguma coisa.
“Caminho dez passos, ela se afasta dez passos, corro cem metros, ela se afasta cem metros. Por mais que eu a persiga, jamais a alcanço. Então para que serve a utopia? Serve para isso: para fazer caminhar”.
Eu talvez nem tivesse consciência de que minha busca era exatamente essa e ainda tinha repostas prontas para o que buscava naqueles anos de uma jovial esperança utópica tão bem definida aqui por Eduardo Galeano.
Como não deixei para trás nada que pudesse me fazer sentir saudade, consegui estabelecer, no máximo, dois ou três contatos com meu passado em todo aquele tempo e aquilo tudo, aquela vida que levara antes de desembarcar no terminal do Tietê, me parecia mesmo algo longínquo demais e parecia não mais fazer parte da minha história.
Se alguma coisa era capaz de despertar em mim qualquer gosto de saudade, nada tinha a ver com pessoas ou momentos vividos. A nostalgia que vez ou outra me apertava o peito estava intrinsecamente relacionada as minhas paisagens natais.
Lembrava-me dos lugares que gostava de estar quando menino e apenas essas lembranças eram capazes de me remeter a uma saudade doída de tão pungente.
Eu podia estar em todos aqueles lugares mágicos independente do dinheiro que trazia nos bolsos e isso era tudo que me valia a vida antes de chegar em São Paulo.
De todos esses meus tesouros de infância e parte da adolescência, o lugar que mais revirava minhas lembranças eram as minhas verdes e frias montanhas. Era maravilhosa a sensação de liberdade que sentia quando o vento soprava quente de tão frio lá no alto de minhas montanhas.
Estranho como as pessoas me diziam tão pouco perto do que me gritava as paisagens! Nem mesmo Klauss, o amigo que me levara a um teatro pela primeira vez; nem Daniel, o cobrador do bonde que me dava carona todas as tardes, depois das aulas; nem Heitor, meu primeiro grande mestre... Ninguém... Ninguém era capaz de despertar uma saudade maior do que a minha montanha causava.
Qualquer momento difícil aqui nessa cidade que tanto vicia seria capaz de superar algumas dores que trazia entranhada em mim.
Nunca, jamais, conseguiria esquecer o dia em que nosso casebre despencou da ponta do morro e que roubou, num só dia, minha mãe, meus dois irmãos, minha irmã e a possibilidade de uma vida familiar normal.
Não esqueceria jamais o momento em que chegamos em casa, ou onde deveria estar a nossa casa, e os olhos desesperados do meu pai me fizeram entender, apesar dos meus poucos quatro anos de idade, que a tragédia havia carimbado em nossa alma uma ferida tão grande que o tempo jamais conseguiria fechar e que nós, jamais, sorriríamos como antes.
Lembro-me das irmãs que nos abrigaram por alguns dias, junto com mais algumas pessoas que sobreviveram aquele infortúnio impiedoso da natureza. Natureza celestial e humana, pois, se como diziam as irmãs: Deus havia mandado aquela forte chuva porque ela se fazia necessária para limpar o mundo; os homens colaboravam muito quando iam loteando e vendendo nossa cidade a um alto preço enquanto ao povo do lugar cabia ir subindo os morros que eram os únicos lugares que ainda não tinham um valor de mercado, embora o preço daquela subida fosse um mais insustentável ainda de tão alto. Como saboreávamos naqueles dias esse amargor caro e impagável.
O turismo desordenado da minha verde terra fria custava muito caro e como quem pagaria por ele seria sempre nós, os que menos tínhamos condições de bancar aquilo, aquela cidade me parecia agora, vista assim de longe, uma grande e montada cidade cenográfica, com sua beleza de papéis coloridos, suas falsas paredes que desmoronariam aos primeiros ventos mais fortes. Uma cidade onde coisas reais não tinham espaço como seu próprio e genuíno povo faminto e magro.
Até mesmo o verde das minhas montanhas já tinham preço e eu não podia mais arcar com isso. Tudo que eu tinha eu já entregara em troca de poder me sentar no alto daquelas montanhas. Entregara toda a minha família por aquele quinhão de felicidade, mas, ainda assim, cobrariam por cada tragada de ar puro levado aos meus pulmões e eu já acreditava que aquele preço não mais me caberia e nem acreditava no poder da supervalorização daqueles benefícios.
Meu pai também se entregou a morte enfiando-se na bebida e destruindo seu fígado com o calor de seus traumatizantes pileques e eu ouso dizer que ir com minha avó busca-lo quase todas as tardes em alguma sarjeta daquela cidade me custou ainda mais do os funerais de minha mãe e meus irmãos.
Eu era conhecido como o “menino do dente” e isso porquê no dia do fatídico acidente, meu pai e eu havíamos ido ao dentista da igreja para que ele extraísse um dente de leite que nascera fadado ao fracasso e que perturbava a paz do menino ainda tão pequeno para compreender tamanha dor. Eu só tinha quatro anos e conseguia achar o alívio causado pelo extermínio daquele intruso tão bom que nem mesmo a morte de minha família foi capaz de me tirar o sorriso quando eu passava a língua pela gengiva inchada e encontrava o buraco imenso que ficara em minha boca enquanto meu pai chorava sobre os caixões de nossa família, imaginando o buraco muito maior em que haveríamos de nos enterrar juntamente com aqueles corpos.
Meu dente nascera tão inapto a sua função de dente quanto meus irmãos e eu, e mais todos aqueles meninos filhos das famílias miseráveis dos morros de Campos do Jordão, nascemos inaptos à condição humana. Essa condição a nós negada não poderia conceber seres que enterravam seus avós mortos pelo frio castigante, seus irmãos mortos pela desnutrição ou sua família inteira levada pela chuva.
Engraçado que no mesmo momento em que mergulho nas minhas mais sombrias lembranças, alguma coisa quente venha acalentar meus pensamentos. Mas como poderia lembrar de minhas verdes montanhas sem me lembrar que lá no alto experimentara quase todas as sensações proibidas de minha vida?
Lá havia tomado meu primeiro gole de álcool, quando tinha dez ou onze anos, num ritual quase sagrado entre meus amigos e eu; lá fumei meu primeiro cigarro, comprado com o dinheiro ganho da venda das cocadas feitas pela minha avó e que eu vendera no centro da cidade quando tinha doze ou treze anos; lá também conheci o aroma da fêmea que morava em Natália, minha calorosa e sensual namorada e vivi o primeiro momento sexual de minha vida; só não me lembro se foi lá que provei o meu primeiro baseado, mas acredito que tenha sido dentro de uma daquelas grutas, numa daquelas noites em que reunia todos esses “pecados” de uma só vez e que eu não me saberia se mais entorpecido pelo álcool, por tal erva ou pelas meninas que povoavam a minha vida com novas e quentes sensações.
Minha primeira namorada foi Natália, mas meu primeiro amor foi Denise que, por sinal, dividia comigo o mesmo quintal enquanto morei com minha avó; comigo e com mais dez ou mais famílias que se amontoaram naquele terreno público que mais tarde viraria uma das grandes pousadas de minha cidade.
Se com Natália vivi o primeiro momento sexual, foi com Denise que o amor se desenhou em forma de sensualidade e a ida dela para a Alemanha, juntos com um grupo de freiras que fazia uma espécie de missão na nossa cidade e, de alguma maneira pra mim desconhecida, despertaram em Denise a sua vocação, segundo ela me dissera numa das noites mais chorosas e intermináveis da minha vida; foi parte responsável pela minha decisão de deixar Campos de vez.
Falando assim, pareço um velho e cansado homem que arrasta uma saga por anos a fio, mas, na verdade, as coisas para mim aconteciam com tanta rapidez que quando vim para São Paulo, já me sentia um homem pronto a buscar meus caminhos verdadeiros.
Ainda o quintal de nossa casa, aquele mesmo dividido com tantas pessoas, vivi algumas coisas que, por muitas vezes, me fizeram chorar muito de revolta. Nessa época eu já não tinha mais meu pai e morava com minha avó e um tio doente e doentio numa casa minúscula de dois úmidos cômodos.
Aqueles dois seres eram os únicos que restaram de minha família, mas, nem por isso, eu sentia por eles qualquer carinho especial. Minha avó era seca e amarga como sua vida e esforçava-se para me mostrar o tempo inteiro o quanto eu havia driblado o destino ao sair com meu pai naquela tarde de vinte e oito de fevereiro de mil novecentos e oitenta e dois.
Hoje sei que não fazia por maldade, só não havia aprendido a amar e não poderia me oferecer mais do que seus quentes pratos de sopa rala, ou suas rezas curandeiras quando estava com febre, como prova de um carinho que ela jamais ousou saber traduzir.
Mas não eram as frases que minha avó repetia como preces quando eu não a contentava por alguma razão: “Enganou a morte uma vez, mas você não é gato não. Gente só tem uma vida. Não sei por que Deus não te levou junto para sua mãe cuidar de você junto com seus irmãos.”
Embora elas muitas vezes me fizeram chorar, não eram essas duras frases que me revoltavam naquela época... não eram essas frases geladas que me tiravam o sono nas noites inquietas e solitárias.
O que gritava dentro de mim e tirava as minhas forças era a fome que gemia alto nas nossas vidinhas que resistiam bravamente dias, arrastando-se por entre os pinheiros iluminados nos vários e vazios natais.
Minha avó lavava as roupas de cama de um pequeno hotel no bairro de Abernéssia e, com isso, conseguia comida de graça nos mantendo por algum tempo, mas logo seu reumatismo não mais permitiu que deixasse aqueles lençóis brancos como imaginava o proprietário do hotel e as máquinas de lavar foram substituindo a sua mão de obra e passávamos muita fome então.
Quase todos os dias comíamos sopas feitas com restos de legumes e verduras que minha avó conseguia pegar num convento. Ela dizia que eles lhes davam as sobras, mas até hoje desconfio que ela as pegava no lixo...
Eu nunca reclamei, mas dona Jaciara, minha avó índia, estava sempre lamentando nossa miséria quase que em forma de ladainha.
Nessa época meu tio fora acometido por uma estranha doença que o atrelou à cama para o resto de sua vida miserável e não mais fora capaz de pronunciar uma única palavra e assim ficou por anos, minguando a cada dia até não mais suportar a sua sina.
Numa noite muito fria quase não dormíamos, pois meu tio estava delirando muito com sua febre quase constante e eu me lembro que em meio aos lamentos de minha avó a ouvi dizer que daria qualquer coisa por um prato de feijão.
Dizia: “Feijão te faria bem, Luiz! Feijão seria bom para te dar sustância! Sustância ao seu estrômbago.”
Nunca soube que doença meu tio tinha e nem sei ao certo por quantos anos ele ainda resistiu a aquele fim tão previsível, mas... o feijão, ou a vontade de ajudar aquela velha e cansada mãe a segurar a vida de seu filho que esvaia por seus dedos me roubaram o sono e eu, que hoje nem suporto o gosto do feijão, passei a noite imaginando uma maneira de conseguir dinheiro para comprar o alimento que “salvaria” meu tio daquele tormento, muito embora eu deva confessar, sem qualquer traço de culpa ou remorso, que a vida daquele ser ali, muito pouco me despertava solidariedade, compaixão ou qualquer outro sentimento mais humano.
Eu devia ter uns sete ou oito anos nessa época... Ainda não conhecia as várias maneiras de se conseguir dinheiro naquela cidade turística que vim a conhecer mais tarde.
Depois de uns dias, cheguei em casa após ter almoçado no convento onde tinha aulas de catecismo e de dança, e minha avó estava dando ao meu tio um prato de um caldo ralo, mas, olhando melhor, pude ver alguns grãos de feijão boiando no caldo sem cor e me senti feliz como nos melhores momentos de minha vida.
Mais tarde descobri que minha avó colecionara por algum tempo, os grãos de feijão despejados no quintal e isso se tornara um hábito desse dia em diante. Ela recolhia os grãos e quando acreditava ter uma quantidade suficiente, cozia, como naquela tarde.
Essa “colheita” não era realizada numa plantação, aliás, até hoje não entendo o porquê de, naquele imenso quintal de terra, não haver uma única planta que pudesse ser ingerida; mas o fato é que com todas aquelas famílias morando juntas, quando se selecionava os grãos, os inaptos eram despejados no chão de terra e eram esses grãos que minha avó colecionava para dar ao meu tio. Eram os grãos despejados por aquelas tantas famílias que compunham o cardápio alimentar que salvaria meu tio da morte e quando me dei conta disso, lembro-me que chorei muito de revolta e que vi na minha avó uma força nunca antes percebida.



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Domingo, Setembro 30, 2007

Intervalos...


Pote d'água


Beba menina!
Beba dessa água doce
Que por mais salgada
Que um dia tenha sido,
Ao encontrar teu leito
Fartou-se de um mel absoluto.
Beba que esse pote só se derrama
Em teu nome
E será em nome da tua sede
Que meu barro se manterá
Pra sempre capaz
De conservar o frescor
Desse nosso líquido vital.




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Intervalos...



O cheiro da noite


E rompe da noite um cheiro de jasmim
Entope minhas narinas que pra ti se abrem
Como se abre pra ti cada parte de mim
Como se da vida recebeste a chave


Corro os ponteiros do relógio do meu delírio
E como um louco bebo o teu cheiro que me invade
A língua lambe lânguida
Saliva o sal da seiva selvagem


Colho do orifício da tua boca o mel
Saciando a sede saboreio a sorte
Ahhhhhhhh mulher como pode ser tão carnal?
Se é aqui no peito que o amor me arde?
Ahhhhhhhhhhhhhh vem desfilar nesse meu carnaval
A alegoria exposta dessa minha carne que te pede.






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Sexta-feira, Setembro 28, 2007

Intervalos...


Overlove


De repente
Tudo pinta
Uma loucura natural
Um tipo de sonho
que não acaba
Um tipo de frio
que não pede agasalho
De repente
o corpo balança
as mãos tremem
e o coração acelera
de repente e
nem tão de repente
solto sem querer
palavras que soam
como badaladas
de um sino
de repente
te amo
e de repente
sou teu.






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Quinta-feira, Setembro 27, 2007


Intervalos...


É pela boca,moça!

É pela boca que o veneno entra
É pela boca que o gemido sai
É pela boca que a palavra peca
E é pela boca que o perdão se esvai.
Pela boca o gosto se completa
E pela boca meu desejo trai.




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Quarta-feira, Setembro 26, 2007


Intervalos...


Sangue

Estilhaços de vida
Corta faca
Falta afeto
Sou um feto
Em pleno desenvolvimento
Soprando um vento forte
Dentro do ventre quente
E me torcendo de frio




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Segunda-feira, Setembro 24, 2007


A Marca de Caim


[Capítulo I]

Sampa prazer em conhece-la...

Quando sai da minha pequena cidade natal trazia pouca roupa e muita esperança de que me encontraria naquela nova proposta de vida.
Li outro dia que a esperança é diferente do otimismo, praticamente o contrário segundo Rubem Alves. O otimismo depende de boas notícias já a esperança só depende de você crer.
Como ele dizia: “otimismo é trazer a primavera lá de fora para dentro de você e esperança é transformar o inverno lá de fora em primavera dentro de você”.
Era exatamente esperança que eu trazia, pois mesmo não vendo as flores brotando lá fora, preparava jardins imensos no meu interior para abriga-las.
Sabia que o que ficava para trás não era nada do que eu queria viver e assim saía sem nenhum traço de arrependimento ou saudade.
Bem verdade que quando desci no Terminal Rodoviário do Tietê e vi aquele monte de gente, diferente dos paulistanos que visitavam minha fria cidade, choquei-me por alguns instantes.
Quanta gente! Quanta pressa! Quanto barulho!
E tudo isso parecia passar tão despercebido por todos. Somente eu parecia vislumbrar tamanho frenesi. Era como se as pessoas não vissem as pessoas e o barulho fosse a mais bela música a entupir os ouvidos sempre tão alheios a tudo e tão atentos a todos, paradoxalmente.
Apertava forte em minhas mãos a bolsa e sentia o peso da grande mochila em minhas costas.
Alguém já havia me prevenido sobre lugares tumultuados, alvos fáceis como eu deveriam sempre estar atentos.
“Onde há fome, há violência”.
Era exatamente da violência da fome que eu pensava fugir quando desci naquele terminal tão repleto de gestos e tão vazio de intenções.
Vítor me dissera ao telefone: “Procure a Marginal do Tietê”. E não foi difícil encontra-la. Bastou procurar o rio mais triste e a avenida mais cinza que eu já vira e lá estava eu, exposto ao calor insuportável da “terra da garoa”, numa tarde de uma quinta feira do mês de abril, num ponto de ônibus repleto de gente e um cheiro forte de churrasco que se confundia com um terrível cheiro que emanava daquele rio agonizante.
Enquanto esperava por Vítor olhava os muitos carros presos naquele trânsito de arrepiar e observava os motoristas impacientes aguardando o momento mais desejado naquela situação: poder acelerar.
A minha esquerda notei um homem que caminhava devagar, falava ao celular e vestia um terno alinhado e aparentemente bem caro. Carregava nas mãos uma pasta do tipo executiva que parecia abrigar os segredos de uma grande negociação.
Eu sei que as pessoas se acostumam. Hoje entendo ainda mais essa premissa, mas, aquele cheiro absurdamente cruel que entupia minhas narinas era algo tão agressivo ao meu olfato de recém chegado que me admirava ver as pessoas comendo aqueles espetos de churrasco tão tranqüilamente enquanto eu tinha que prender a respiração algumas vezes tamanha a náusea que o odor provocava.
Olhei o vendedor de churrascos, homem simples e tão seguro, parecia ter uma consciência tão plena sobre suas possibilidades... Enquanto virava seus espetos na pequena churrasqueira enferrujada ou enquanto servia cachaça em copinhos descartáveis para os tantos homens que se achegavam a sua capenga barraca, o que eu conseguia ver nos gestos e expressões daquele homem, era uma certeza plena de que aquele era seu lugar no mundo e que era exatamente naquele lugar que ele queria estar.
Mais adiante uma senhora trazia numa das mãos um grande envelope que parecia recém saído de um laboratório e que abrigava um diagnóstico misterioso para mim. Na outra mão trazia um menino de quatro ou cinco anos muito bem preso naquelas rédeas maternas.
Olhei os olhos dela a procura de alguma resposta sobre o misterioso envelope, mas só o que via era a preocupação da mãe que precisa chegar logo em casa, voltar para seus afazeres e só o que conseguia enxergar era o trânsito caótico e os poucos ônibus que chegavam apinhados de gente como eu nunca testemunhara em minha vida.
Vítor estava bastante atrasado, mas com um trânsito daqueles...
Por um instante fixei-me na imagem do menino que parecia despender de um esforço incrível para libertar-se daquela mão protetora. Não iria a lugar algum aquele menino solto, mas na mãozinha gorda e livre trazia um pacote de biscoitos de polvilho esmagado por sua própria ansiedade e todo aquele brutal esforço era apenas canalizado à intenção de levar um daqueles anéis comestíveis à boca.
Sorri amplamente ao constatar que enquanto lutava com a mão forte da mãe tentava abrir o tal pacote e levava a boca até ele sem sucesso enquanto seu rosto estava totalmente decorado pelos farelos das guloseimas já ingeridas.
Enquanto sorria me divertindo muito com tal cena não me dava conta de que alguém poderia estar me observando como eu a aquele menino. Ainda não haviam me prevenido que não seria muito adequado andar sorrindo pelas ruas, pois, poderia apresentar sinal de insanidade...
Insanidade?
Continuava a olhar o trânsito, a sentir o odor do rio que morria, enxergar o cinza da avenida e observar os ônibus lotados.
Um motorista menos conformado resolveu que o barulho de sua buzina poderia interferir na ordem natural daquele caos e o barulho que produzia era ainda mais violento do que aquele trânsito insuportável. O pior é que ainda conseguia adeptos naquela sua idéia infeliz e outros motoristas acharam por bem meter suas mãos em suas buzinas e a primeira palavra que me veio à cabeça foi: In-sa-ni-da-de.
Lutas diferentes a daqueles motoristas presos no trânsito e a daquele menino preso na zelosa mão materna. Mas no final todos buscavam apenas libertar-se, ainda que de garras tão diversas e por motivos ainda mais diversos.
Os motoristas lutavam contra aquelas correntes usando como armas aqueles ruídos insuportáveis, o menino lutava bravamente em silêncio, mas todos tinham um grito forte estampado nos olhos e isso me remeteu a acreditar que também eu assumia uma grande luta quando subi naquele ônibus e vim encontrar-me com essa cidade de grandes guerreiros. Mas quais seriam as minhas armas?
Algumas pessoas no ponto ousaram reclamar do barulho produzido por aqueles motoristas, mas falavam para si mesmo e eu, ingênuo, tentei interagir com algumas delas, mas tudo que obtive como respostas foram rostos fechados, caras carrancudas de quem teme o desconhecido principalmente quando esse desconhecido se mostra vivo como eu naquele momento. Um desconhecido que tenta interagir e que sorri ao observar um menino pode ser mesmo muito mais perigoso do que se imagina.
Mais a frente um caminhão trazia uma mudança pobre exposta aos ares poluídos da grande marginal e eu reparei um sofá tão velho e roto quanto o caminhão que o transportava e vi a fumaça preta que se desprendia do escapamento enquanto o motorista acelerava freneticamente sem sair do lugar.
Um helicóptero chamou a atenção de todos por seu vôo baixo e escutei alguém dizer: “É da P.M., só falta ter tido rebelião na FEBEM”.Outra voz completou: “Xi! Se isso aconteceu, vamos chegar em casa só amanhã”.Eu olhei para o helicóptero e para os dois homens que falavam e pensei o que poderia significar aquelas palavras. Seria mesmo possível uma cidade tão grande que para se deslocar dentro dela se varasse uma noite inteira?
Um homem muito alto, magro e visivelmente alcoolizado pedia esmolas às pessoas que sequer o olhavam enquanto um outro senhor também alto e magro, vestindo um terno verde e bem gasto cochilava apoiado numa das colunas de cimento que seguravam o teto do ponto de ônibus.
O trânsito dava suas primeiras mostras de normalidade e eu conseguia até mesmo enxergar o outro lado da avenida. Meus olhos conseguiam ver, entre um carro e outro que ainda passavam lentos, o canteiro a margem do rio.
Observei um cachorro imenso e marrom que jazia com as pernas para o ar encostado ao canteiro e supus que o odor insuportável que sentia a pouco tinha alguma coisa a ver com aquele cadáver.
Sim. O cheiro. Por alguns momentos eu havia me esquecido de senti-lo, imerso que estava na paisagem inédita que se revelava para meus curiosos olhos de forasteiro. É. A gente se acostuma muito mais fácil do que parece!
Muitos carros iguais passavam devagar diante de mim e chamavam a atenção de todos exatamente por serem iguais. Percebi que era uma escolta e eu pude ver um senhor grisalho dentro de uma bela Mercedes e viajei nas diversas possibilidades de identidade e estilo de vida daquela pessoa tão bem guardada pelos tantos carros que o cercavam.
Um automóvel tipo Kombi parou no ponto e um garoto pendurado do lado de fora dele oferecia condução aos berros confusos e, ao olhar para dentro daquele automóvel, eu tive a nítida impressão de que qualquer pessoa que tentasse entrar ali sairia imediatamente pelo vidro do outro lado, mas a mãe zelosa entrou, não sem antes empurrar o menino que finalmente livre ainda conseguiu enfiar umas daquelas argolas inteiras e de uma vez em sua boca tão pequena e faminta.
Com a mãe mais duas ou três pessoas ainda conseguiram entrar e eu fiquei extasiado diante daquela situação, mas lendo o grande letreiro na lateral do automóvel imaginei mesmo ser normal que um veículo intitulado lotação pudesse andar assim tão lotado.
De um momento para o outro o trânsito fluía e algumas pessoas arriscavam sorrisos e comentários otimistas, mas logo a alegria acabou, pois um ônibus enorme como eu nunca tinha visto passou rápido na pista do meio da avenida ignorando as quase dez pessoas que acenavam para ele esperançosas em chegar aos seus destinos.
Alguém gritou palavrões, outro rogou pragas e outro falou mal do governo, mas novamente ninguém falava com ninguém e isso parecia perfeitamente comum.Tão comum que eu mesmo já me acostumara e nem tentara responder.
Observei alguns olhares divertidos e então percebi a presença de um rapaz que passava rebolando, cantando e jogando beijos a todos os homens que via.
Foi a primeira vez que alguém interagia comigo naquela tarde: “Nossa! Menino você é uma delícia!”.
As pessoas me olhavam sorridentes e, por um momento único, pareciam perceber que éramos todos da mesma espécie e confraternizaram sua diversão umas com as outras.
Alguém gritou: “Vai pra casa bicha loca!”.
O rapaz esqueceu-se de mim e parecendo ser a pessoa mais feliz do mundo com seu olhar brilhante abaixou a calça deixando seu traseiro magro e pobre exposto ao homem que havia gritado.
“Sai pra lá com essa bunda seca, Michael Jackson! Não espanta minha freguesia, rapaz!” – gritou o vendedor de churrasco forçando uma ira inexistente naquele momento.
Todos pareciam viver um momento de prazer explícito e sorriam muito divertidos com a tragédia daquele ser visivelmente perturbado e bizarro.
Todos sorriam muito mesmo depois que tal figura continuou sua caminhada afastando-se dali, exceto o senhor que ainda cochilava seu cansaço e uma senhora que parecia indignada com a cena e esforçava-se para não olhar na direção do insano transeunte, embora eu pudesse apostar que não perdera nem um só lance.
De alguma maneira absurdamente incomum aquele homem foi a primeira pessoa a se mostrar feliz em receber-me em sua cidade e ainda mais absurdamente eu senti um carinho especial por aquela pessoa que havia me enxergado e que fora capaz de pulverizar naquela gente que a pouco gritava palavrões alguns momentos de alegria e percepção dos outros a sua volta.
Mas um tumulto grande atrás de nós chamou-nos atenção e eu vi um menino que corria muito enquanto dois ou três homens tentavam alcança-lo e a mulher que vendia passes e cigarros contrabandeados gritava: “Pega ele. Pega esse safado pra mim!”.
“Esse ninguém mais pega” falou o senhor que acordara de repente e disse isso olhando fixamente para mim e eu apenas sorri. Por alguns segundos temia muito o que poderia presenciar caso o menino fosse mesmo pego por aqueles três homens grandes e fortes.
Nesse exato instante pensei que se não sabia ao certo o que vim buscar quando entrei naquele ônibus até a grande metrópole já brotava em mim a certeza de que não queria ser o homem de terno alinhado que segurava em suas mãos os segredos de um grande negócio e nem muito menos o senhor grisalho escoltado por toda aquela frota; também não queria ser o seguro vendedor de churrascos, nem o menino que corria com seus passes roubados e nem, muito menos, um dos homens que tentava alcança-lo.
Com uma ânsia imensa de que o mundo me revelasse de uma vez por todas o que estaria buscando de fato, pensei:
Essa cidade vai me consumir e é exatamente isso que eu quero.



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Domingo, Setembro 23, 2007

A Marca de Caim


Introduzindo...

Caminhava devagar.
Estava escuro demais e eu já não podia saber por onde meus pés deslizavam.
Tinha as pernas bambas e o suor escorria livre sobre o arrepio da minha pele.
Não havia nenhum sentido que funcionasse naquele momento.
Não sentia os aromas daquele mergulho no escuro, não havia tato capaz de encontrar alavancas onde pudesse me segurar, não havia ruídos que pudessem me guiar...
Não havia nada. Somente eu mesmo e meus pés inseguros sobre aquele desconhecido chão.
Todo e qualquer sangue do meu corpo parecia estar nas pontas dos meus pés que sempre chegavam primeiro ao próximo passo.
Nem mesmo meu coração parecia bater naquele momento e não sentia qualquer sinal de sangue em minhas veias e nem ar nos meus pulmões.
Estaria eu mergulhando no acaso escuro do último encontro?
Quem estaria me esperando ao final daquele passeio?
Outra vida ou mais morte?
E foi então que meus pés encontraram o nada. Foi então que provei a misteriosa sensação de pisar o nada e escorreguei para dentro daquele imenso vazio onde sequer me sabia ser.
E na queda, o ar que invadiu minhas narinas de maneira grotesca impedia-me até mesmo de pensar sobre a queda ou de tentar traçar com os olhos aquele caminho sem volta.
Eu estava cego... já não mais poderia ver a beleza daquele mergulho final!
Já não mais poderia tentar regressar a qualquer início, qualquer recomeço me fora definitivamente negado.
Antes mesmo de sentir o gosto frio do sangue que rompia em minha boca ou a dureza do solo que me recebia solenemente, minha mente passeou pelos infinitos pontos de interrogação que arrastei vida afora:
Onde teria começado esse meu fim?
No primeiro gole de vinho que provei para tentar mostrar que não era mais criança?
No primeiro trago da maconha que fumei na Gruta?
Na primeira carreira de cocaína disposta sobre o prato branco e com as bordas quebradas?
Na primeira vez que tirei meu pai duma poça de água suja?
Nas palavras duras de minha avó quando desejava que eu também tivesse morrido?
Nos transes monstruosos de meu tio moribundo?
No doce de amendoim que roubei na barraca da tia Sônia e no tapa que ganhei por causa disso?
No desejo de ter os beijos de minha mãe cada vez que eu ralava o joelho?
Na minha dor de dente?
No descortinado violento da ruptura familiar em forma de tragédia?
Na primeira das mil e uma noites com aquela mulher do Egito?
No banho de ervas de Manuca para me livrar da marca de Caim?
Na boca do meu primeiro cliente?
Onde está o início desse meu fim?



Deixe sua marca:


Intervalos...



Medo

Sombrias as noites em que deito
Pensando no amanhã tão incerto
E um certo medo me invade
E por mais que eu feche as portas
Tranque as janelas
Puxe as cortinas
Aquela luz vem e ilumina
O meu rosto apavorado
Com medo de ser ver no reflexo
Do travesseiro molhado!



Quem sou EU:

Mais um espaço que esse meu corpo faminto ocupa...
Mais um canal por onde vazará o meu lirismo...
Mais um caminho por onde meus pés sempre aflitos tocarão novos solos...
Mais uma tela em branco onde minha vida se desenha..
Pretendo aqui deixar capítulos escritos dessa minha arte,
e espero apenas poder continuar esse meu grande desafio,
que é compôr esse meu ser metafórico, com todas as nuances que vocês me emprestarão,
sem jamais deixar de gritar o meu tom.

Vou tentar publicar um capítulo por semana até findar o livro e chamarei de intervalos as postagens de outros textos meus... Espero que gostem ou não gostem, só não aceito a apatia!


marca_de_caim@yahoo.com.br


"A mão que toca o violão, se for preciso faz a guerra...”

Se Caim era filho de Adão e se Adão foi expulso do paraíso por conta de ter obedecido aos comandos da Eva eu não sei,
e nem pretendo mergulhar nessa reflexão.
O que me toca é pensar que ainda que seja uma ficção,
um homem é sempre resultado de suas escolhas...
Ainda que a esse homem sobre pouca chance de alternativas...
Sempre existirá um sim e um não!
Se por minha Eva eu comi o fruto,
ou se por inveja eu matei um irmão...
Esse é só o desenho lógico da minha opção.
E eu aceito a marca!
Eu aceito o sinal,
e já não me preocupo em me saber bom ou mau,
eu sou apenas um ser humano redigido em verso e prosa por suas escolhas!

Arthur Lima









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